Rali Grupo BPor Rodrigo Machado // Fotos: Divulgação

Em 24 de janeiro de 1986 terminava a primeira etapa do Campeonato Mundial de Rali, no sagrado piso de Mônaco. A vitória do promissor finlandês Henri Toivonen indicava o início de uma épica temporada, com os Lancia Delta S4, Audi Sport Quattro S1, Ford RS200 e Lancia 037 protagonizando uma das maiores disputas da história.

Exatos 100 dias depois, no dia 3 de maio, o automobilismo acordava sem um de seus maiores talentos e com o futuro negro para o esporte. A morte de Toivonen e de seu navegador no Rali da França escancarou os perigos do alucinante Grupo B e fez com que a FIA decidisse banir a categoria horas depois do acidente. O rali continuou desde então. Mas, sem saudosismo, nunca mais foi o mesmo.

O MITO

Rali Grupo BNos seus últimos cinco ralis, Henri Toivonen só colecionou vitórias e abandonos. Com ele, era tudo ou nada.

A maluquice do Grupo B se explica pelas regras: ou pela ausência delas, para ser mais exato. As únicas especificações da FIA eram a necessidade de ter dois bancos, construir 200 unidades para homologação, além de peso e largura dos pneus com dimensões mínimas dependendo do tamanho do motor. Como não havia qualquer referência à potência ou ao tamanho dos turbos – como acontece atualmente – os carros chegavam facilmente a 600 cv, com cerca de 1.000 kg, e 0 a 100 km/h em 2 segundos. Isso em uma época em que o carro de rua mais potente do mundo era o Porsche 959 com seus 444 cv. O Grupo B era a estratosfera da preparação.

Há uma lenda que, durante a temporada de 1986, Henri Toivonen guiou seu Lancia Delta S4 no circuito de Estoril, Portugal, e conseguiu tempo que o colocaria na sexta posição no GP de Fórmula 1 do mesmo ano. Algo incrível para um carro de turismo em uma categoria de monopostos.

Mito ou não, a verdade é que os carros atingiram um nível sobre-humano. O próprio Toivonen disse após a vitória no Rali da Grã Bretanha de 1985 que o Delta S4 nunca ia em linha reta. “Toda vez que eu engatava a quarta marcha, o carro ia de lado e tentava pular para fora da pista. Eu venci a etapa, mas não sabia como guiá-lo. Parecia que o carro tinha uma mente própria.” Após a morte do finlandês, um estudo da FIA revelou que as reações dos pilotos eram lentas demais para a velocidade de seus carros e que seus olhos não conseguiam ajustar o foco na estrada de curvas rápidas, resultando no chamado efeito Visão de Túnel, quando o cérebro perde a capacidade de gerar a visão periférica. Vale lembrar que não há área de escape no rali. Se você errar, bate em uma árvore ou cai de um penhasco.

Rali Grupo BO finlandês Juha Kankkunen foi o último campeão do Grupo B com o lendário Peugeot 205 T16 E2. Ele ainda venceria o título outras três vezes.

COMO ÁRVORES

O perigo é sedutor. É por isso que o automobilismo é popular: porque as pessoas gostam de ver seus heróis desafiando a morte. No caso do rali, a popularidade estava em seu auge nos anos 1980. Dezenas de milhares de pessoas iam assistir às etapas do mundial literalmente à beira das estradas. Muitas vezes, os espectadores ficavam a frente dos carros e saíam apenas no último momento. “Eles não estavam acostumados com a velocidade que estávamos indo”, disse o bicampeão Walter Röhrl. “Chega um ponto onde você tem de dirigir considerando que eles são parte do jogo. Tivemos que vê-los como árvores. E você não quer acertar árvores”, completa Michèle Mouton, vencedora de quatro etapas na carreira.

A combinação de carros estupidamente rápidos e fãs estupidamente estúpidos começou a dar resultado no Rali da França de 1985. Ao entrar em uma curva fechada de pé embaixo, o italiano Attilio Bettega perdeu o controle de seu Lancia 037, caiu em um barranco e acertou uma árvore. O carro foi destroçado e o piloto morreu na hora, apesar do navegador Maurizio Perissinot ter saído ileso. Foi o primeiro acidente a chamar a atenção da FIA para a segurança da categoria.

O surreal Grupo B continuou sua caminhada para o fim no Rali de Portugal de 1986, o terceiro da temporada. O local e estreante Joaquim Santos perdeu o controle de seu Ford RS200 e acertou uma muralha de pessoas, matando três e ferindo outros 30. No final do dia, todos os pilotos e equipes se juntaram e decidiram terminar a sua participação na etapa. E ainda assinaram uma carta pedindo para a FIA rever a situação dos espectadores, já que, para eles, o português bateu ao tentar desviar do público. Após o evento, a Audi decidiu sair definitivamente do Campeonato até que a questão dos fãs fosse resolvida e colocou ainda mais pressão na FIA.

Rali Grupo BApós o acidente em Portugal que matou três espectadores, o mundo do rali se juntava para apelar por mais segurança junto à FIA. A carta dizia que os pilotos não conseguiriam mais garantir a integridade física dos fãs malucos.

HERÓIS

“Esse rali é insano. Mesmo que tudo esteja indo bem no momento, se ocorrer algum problema, eu estou morto.” As palavras de Toivonen antes do Rali da França de 1986 pareciam prever o futuro. Sofrendo com uma gripe e reclamando que o Delta S4 era potente demais para as condições da etapa, o finlandês passou reto em uma simples curva à esquerda que não tinha guard rail durante a 18ª especial.

Como o rali era disputado no asfalto, a Lancia havia retirado a placa que protegia o tanque de combustível de detritos em pistas não pavimentadas. Resultado: o carro capotou após cair na encosta, o tanque de combustível foi facilmente perfurado pelas árvores e, ao entrar em contato com as partes quentes do motor, entrou em combustão. Henri Toivonen, 29 anos, e Sergio Cresto, o navegador norte-americano de 30 anos, foram queimados em seus assentos. Horas depois do acidente, o presidente da FIA, Jean-Marie Ballestre – aquele mesmo que deu o título para Alain Prost na disputa com Ayrton Senna em 1989 – decidiu proibir o Grupo B de competir a partir de 1987. A FIA investiu no Grupo A para os anos seguintes, formado por carros menos potentes e maior restrição nas regras. O rali se manteve perigoso: foram sete mortes em cinco meses entre 1988 e 1989. Mas, tal qual a Fórmula 1 atual, passou a não precisar mais de super-heróis atrás do volante.

Rali Grupo BAcima, o que sobrou do Lancia Delta S4 de Henri Toivonen após cair em um barranco e pegar fogo. Piloto e copiloto morreram queimados em seus assentos.