Segredo! Eis os planos da Fiat no Brasil

Marca terá uma série de novidades no país a partir de 2014

 

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Por Gustavo Henrique Ruffo, Ícaro Bedani e Luiz Guerrero - Publicado na edição nº 63 (mar/2013)

Manter a liderança em vendas no País, posto que ocupa pelo 11º ano seguido, e se posicionar estrategicamente à frente da Volkswagen é apenas parte dos planos. O que a marca quer  é aumentar sua margem de lucro com carros de maior prestígio. Já a partir deste ano, contará com os reforços da Alfa Romeo e da grife Abarth. E intensificará sua aliança com a Chrysler. Nesta reportagem, mostramos alguns projetos secretos e você conhecerá parte da estratégia da Fiat. E entenderá por que a fábrica de Goiana, em Pernambuco, é parte fundamental desta arrancada.

Goiana, próxima a Recife, é uma cidade com cerca de 80 mil habitantes. Tem economia baseada no setor de serviços e na agricultura. O lugar é conhecido por abrigar o Buraco da Gia, um restaurante cuja atração são os caranguejos amestrados, capazes de abrir garrafas de cerveja ou segurar copos. Mas, a partir de 2014, Goiana se tornará estratégica para os planos de expansão da Fiat no Brasil – e tende a se tornar conhecida por produzir veículos de alto padrão.

É no ano que vem que a Fiat inaugura seu novo centro de desenvolvimento no município, que inclui laboratórios, campo de provas e fábrica de motor. E passa a operar uma linha com pretensões inicialmente modestas de produzir até 250 mil veículos por ano, com possibilidade de, em pouco tempo, dobrar a capacidade. Ela começa a operar com três arquiteturas, todas para veículos de médio porte.

Projeção: João Kleber Amaral

SUV Tigershark

Fornecedores e fontes da Fiat informam que o primeiro modelo a sair de Goiana, no fim de 2014, será um utilitário-esportivo maior que o Fiat 500X, o SUV compacto baseado na plataforma do 500L. Conhecida como Projeto 338, a novidade está sendo desenvolvida pela engenharia da Chrysler, nos EUA, com a colaboração de técnicos brasileiros, e é erguida sobre a arquitetura de Alfa Romeo Giulietta/Dodge Dart/Fiat Viaggio, a CUSW, aparentada da do Bravo.

É um modelo inédito, mas as evidências apontam para um derivado do futuro Jeep Compass, que será lançado nos EUA em 2015. Sempre segundo nossas fontes, o SUV, criado para disputar mercado com o Hyundai Tucson, entre outros rivais, terá quatro diferentes versões: básica, intermediária, intermediária 4WD (tração integral eletrônica) e topo de linha 4WD. Serão equipadas com dois tipos de motor TigerShark, 2.0 e 2.4, ambos de quatro cilindros, 16V, já flex, e virão com transmissão manual ou automática, as duas com seis marchas.

Os primeiros pré-série devem deixar a linha no começo do segundo semestre de 2014, mas a produção só terá início no fim daquele ano. Fala-se em fabricar inicialmente 65 mil unidades do SUV ao ano.

Picape 226

Além do SUV, Goiana abrigará a produção de uma picape. Os fornecedores ainda não receberam as especificações do veículo, mas, pelo volume previsto, de 75 mil unidades/ano, pode-se afirmar que será um modelo de médio porte (a Chevrolet vende cerca de 48 mil S10/ano e a Fiat, quase 120 mil Strada/ano). Outra evidência de que se trata de um utilitário médio é que o projeto da futura picape também foi confiado à Chrysler. Chamada internamente de Projeto 226, também terá versões Fiat e RAM (divisão de picapes da Chrysler).

O que se tem como certo é que o modelo começa a circular como pré-série nos primeiros meses de 2015 e sua produção está prevista para junho daquele ano. Deve vir com variações de cabine (simples e dupla), opções de transmissão 4x2 e 4x4 e câmbio manual e automático.

Há anos a Fiat flerta com a hipótese de ter em seu portfólio uma picape média. Investiu na possibilidade de se associar à indiana Tata para viabilizar o projeto, mas encontrou barreiras nas negociações com os indianos – que não admitiam mudanças técnicas no modelo. Com a Chrysler, dona de reconhecido know-how no assunto, o flerte virou casamento.

Projeção: João Brigato

Viaggio

Por fim, Goiana abrigará a linha do sedã médio construído sobre a plataforma CUSW. Lançado nos EUA como Dodge Dart e na China como Fiat Viaggio, o modelo demorará algum tempo para chegar às lojas: a previsão é que as primeiras unidades pré-série passem a circular em agosto de 2015 e que o lançamento comercial só se dará em dezembro daquele ano. Antes disso, o Grupo Fiat/Chrysler deve importar o Dodge Dart, mas somente na versão mais cara, com motor TigerShark 2.4 de estimados 190 cv. A futura linha de motor TigerShark, de origem americana, pode receber o cabeçote MultiAir, da Fiat Powertrain Itália.

Com a modesta previsão de vendas de 25 mil unidades por ano, o Viaggio terá a missão de substituir, a um só tempo, o Linea (cujas vendas em 2012 não passaram de 8.331 unidades, ou seis vezes menos que as do líder Toyota Corolla) e o Bravo (10.438 carros vendidos no ano passado). A versão hatch, que substitui este último, começa a ser fabricada na China em 2014 e pode ser feita simultaneamente na linha pernambucana do sedã a partir de 2015.

Para se manter dentro da oferta da marca, o Linea, a rigor um Punto esticado, sofrerá facelift no segundo semestre deste ano. O modelo ficará em sintonia com a versão fabricada na Turquia para os mercados europeus: mudam grade, tampa traseira e, por dentro, terá arquitetura parecida com a do Punto. O Bravo, lançado no Brasil em  2010, fica como está até sair de linha: a Fiat sabe que o modelo não é páreo para enfrentar a nova leva de hatches médios que desponta no horizonte. Vá para a página dois e saiba mais segredos da marca italiana no Brasil.

 

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Uno Mille

O Uno foi criado, originalmente, para substituir o Mille. É, portanto, o modelo mais cotado à condição de “carro mais barato” do Brasil a partir de 2014, quando o Mille terá aposentadoria compulsória. Mas a Fiat tem outra alternativa: uma versão atualizada do Palio Fire. Com a opção, a marca manteria em linha uma plataforma antiga, identificada pelo código 178, que deu origem à primeira geração do Palio (1996).

Industrialmente, isso representaria desvantagem, pois a tendência é racionalizar o número de plataformas na linha de montagem. É o que pesa a favor do Uno. Já com o Palio Fire, um projeto já pago, a vantagem seria econômica: se chegaria mais facilmente ao menor preço para o comprador. Em valores de hoje, o Mille Economy custa R$ 22.100; o Palio Fire Economy, R$ 24.100, e o Uno mais barato, o Vivace 1.0, R$ 26.140. As três versões não oferecem nada além do indispensável na configuração básica.

Às vésperas de completar 30 anos de Brasil, o Mille (originalmente um Uno de primeira geração, lançado em 1984) sai de linha no fim do ano por não atender à lei que obriga carros feitos a partir de 2014 a saírem de linha com air bag e ABS. Tecnicamente, a instalação dos dispositivos seria viável; economicamente, não. Versões de exportação do modelo já receberam bolsas infláveis na década de 1990. Mas desenvolver o sistema antitravamento de freios custaria caro demais.

As fábricas

A Fiat está investindo R$ 4 bilhões na construção de sua nova fábrica em uma área de 14 milhões de metros quadrados no município de Goiana, a 62 km de Recife (PE). Além de abrigar as linhas de produção de veículos e seus fornecedores, o complexo receberá fábrica de motores e contará com um campo de provas que promete ser referência no País. Será um polo de desenvolvimento de futuros veículos da marca italiana, bem protegido. O início de produção é previsto para 2014 e a capacidade estimada é, a princípio, de 250 mil veículos/ano.

Originalmente concebida para a fabricação de um Fiat compacto, identificado como Projeto 344, que seria o anti-VW Up, a nova fábrica se tornará centro produtor de modelos médios (incluindo picapes) das marcas Fiat, Chrysler e, eventualmente, Alfa Romeo. Seu primeiro modelo deve ser um utilitário-esportivo.

A fábrica de Betim (foto), capaz de produzir até 800 mil veículos/ano, permanecerá como produtora de modelos compactos. O complexo foi inaugurado em 1976, está no limite de sua capacidade e não tem como se expandir. Ocupa área de 2,25 milhões de metros quadrados e tem 613.800 metros quadrados de área construída.

Os motores

Quem quer que pretenda crescer no Brasil tem de prever grande capacidade de fornecimento de motor e transmissão, um gargalo crítico. É por isso que Goiana também fabricará o coração de muitos automóveis. Ainda que eles não tenham sido definidos, apostamos nos TigerShark, de origem Chrysler, para empurrar os modelos médios que serão feitos por ali. Outra possibilidade são os modelos turbo, como o 1.4 T-Jet e o futuro E.torQ 1.6, um flex para deixar todo mundo feliz. O cabeçote MultiAir também faz parte dos planos. 

Tigre+tubarão

Quem quer que pretenda crescer no Brasil tem de prever grande capacidade de fornecimento de motor e transmissão, um gargalo crítico. É por isso que Goiana também fabricará o coração de muitos automóveis. Ainda que eles não tenham sido definidos, apostamos nos TigerShark, de origem Chrysler, para empurrar os modelos médios que serão feitos por ali. Outra possibilidade são os modelos turbo, como o 1.4 T-Jet e o futuro E.torQ 1.6, um flex para deixar todo mundo feliz. O cabeçote MultiAir também faz parte dos planos. 

Multiair

Os cabeçotes MultiAir são considerados revolucionários. Eles permitem abertura e fechamento de válvula com múltiplas variações por meio de um sistema eletro-hidráulico, extremamente confiável e barato. A solução favorece torque em baixa, potência em alta e melhora o consumo em cerca de 10%.

Turbo Flex

Uma das estrelas dos novos motores E.torQ será a versão 1.6 turbo. A Fiat quer que este seja o primeiro turbo flex (a Volks também desenvolve o seu), algo em que o cabeçote MultiAir ajudará. Com o turbo gerenciado eletronicamente, a taxa de compressão efetiva do motor poderá ser diferente para o uso com gasolina ou com etanol.

Alfa Pernambuco

Com a vocação de fabricar modelos médios, não está descartada a possibilidade de, futuramente, a fábrica de Goiana passar a produzir Alfa Romeo. Tecnicamente a operação é viável, pois os atuais modelos Alfa compartilham as bases de Punto (Mi.To) e Dart/Viaggio (Giulietta).

Tudo dependerá da aceitação que os carros tiverem em seu retorno, previsto para o segundo semestre deste ano. A marca, que melancolicamente deixou o País em 2006, voltará com um lote de Giuletta importado da Itália. Será, nas palavras de uma fonte da Fiat, uma espécie de laboratório para medir a reação dos brasileiros. “A marca tem muita força e ainda muito prestígio no Brasil”, diz. “O Giulietta nos dará o termômetro disso.” Depois do Giulietta, deve chegar o Mi.To. E esta é a oferta de Alfa: apenas dois modelos.

A Fiat quer colocar os carros da marca no mesmo patamar de modelos que contam com prestígio entre os jovens, como Audi A3 ou BMW Série 1, e aposta no poder de sedução do belo desenho do Giuletta. Pode dar certo: boa parte desse público não conheceu os grandes Alfa de tração traseira e temperamento explosivo. A Fiat, no entanto, quer resgatar a tradição: planeja várias ações para o retorno da marca, envolvendo veículos históricos. Os Alfa não terão loja própria: serão comprados na rede Chrysler, também encarregada de cuidar da manutenção. Na página três você saberá tudo sobre o novo SUV da Fiat que concorrerá com EcoSport, Duster e companhia.

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Projeção: João Kleber Amaral

O Anti-Eco

A fábrica de Goiana deve, portanto, aliviar o volume do complexo de Betim, que se tornou pequeno diante das pretensões da Fiat. O quadro que se desenha a partir disso é que Minas Gerais abrigará os veículos de pequeno porte, liderados pelo Uno e pela linha Palio – que passam a ganhar novo status com a saída do Mille, prevista para o fim deste ano. A vocação da fábrica é fazer carros pequenos de grande aceitação popular.

Fundação Fiat

As arquiteturas 326, do Palio, e 327, do Novo Uno, são fruto da Superplataforma Fiat. Hoje são acompanhadas da S (Punto e Linea), da C (Bravo), da 178 (Doblò, família Palio e Idea) e a do Mille e do Fiorino. São cinco estruturas diferentes, mas só três permanecerão: a Superplataforma (acima), a SUSW e a CUSW. As duas primeiras, arquiteturas de grande volume, ficarão concentradas em Betim; a CUSW, em Goiana.

É de Betim – e não de Goiana, como se especulava inicialmente – que sairá o utilitário-esportivo para combater a dupla Renault Duster/Ford EcoSport: o 500X, previsto para ser mostrado na versão definitiva no salão suíço de Genebra. Baseado na plataforma SUSW, ele começa a ser fabricado no segundo semestre de 2014. SUSW é a sigla que identifica as arquiteturas compactas feitas para atender às especificações americanas de segurança (USW vem do inglês “Estados Unidos Larga”). O futuro Punto terá a mesma base.

De acordo com as especificações do 500L, minivan inspirada no 500 e da qual o 500X deriva, o anti-Eco da Fiat terá cerca de 2,60 m de entre-eixos e perto de 4,20 m de comprimento. Na Europa, substitui o Sedici, um projeto compartilhado entre Fiat e Suzuki, e terá tração dianteira e opção de tração integral. No País, seguirá as mesmas especificações. Para empurrar o modelo, as opções mais prováveis de motor são os E.torQ 1.6 e 1.8 – que, no futuro, contarão com cabeçote MultiAir. Não se descarta a possibilidade de fabricar no Brasil o 1.4 MultiAir turbo, um dos motores mais eficientes disponíveis na prateleira da fábrica italiana.

Com a chegada do 500X, é dada como certa a saída de linha da Palio Weekend e de sua versão Adventure para abrir espaço na fábrica. “Não cabe mais nada em Betim”, revelou uma fonte. A picape Strada e a variação Adventure continuam em produção.


Projeção: José Oliveira

Uno e família Palio também continuam em linha. O Palio sofrerá ligeira remodelação no segundo semestre para se distanciar ainda mais da versão Fire 1.0 Economy, cotada como um dos possíveis substitutos do Mille (leia quadro). E o Uno forma família: dele sairá um furgão para ocupar o lugar do Fiorino.

O Punto é outro que permanece: líder em vendas do segmento (42.300 unidades vendidas em 2012, bem acima do Polo), ganha nova geração na Europa em 2014. 

Escorpião

A Alfa Romeo virá para reforçar o prestígio da Fiat – e, obviamente, para escoar a produção excedente da Europa. E, nesta missão, terá a companhia da grife esportiva Abarth, criada em 1949 na Itália pelo austríaco Carlo Abarth. Simbolizada pelo escorpião, foi comprada pela Fiat em 1971, voltou a ganhar força como grife em 2007, com o Punto, na Europa, e, a bordo do 500, desembarcou nos EUA no ano passado.

Nada, porém, servirá tão bem como vitrine para a marca quanto a nova geração do SRT Viper, que será trazida a conta-gotas nos próximos meses, conforme anúncio feito pela direção da Chrysler no Salão do Automóvel do ano passado. A ideia é trazer toda a linha SRT, da qual o Viper é o maior representante. Sim, o comprador comum ainda não associa Chrysler com Fiat. Ainda.

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