Especial: um dia como piloto de Fórmula 1

Fomos até o circuito de Paul Ricard, na França, acelerar o Renault F1 de Kimi Raikkonen

Fotos: Divulgação | Texto: Henrique Neves

 

“Mr Neves, it´s time”. A frase dita por uma francesinha de 1,60 m, voz aveludada e calma, avisa que minha vez chegou. Enquanto descia as escadas que me levariam ao térreo, um filme passou na minha cabeça.

Primeira cena. Dezembro de 1992, teatro da PUC em São Paulo. Meu nome é pronunciado por um mestre de cerimônia. Subo ao palco e recebo meu diploma de jornalista. Corta.

Cena dois, maio de 1994. Escuto meu nome sendo chamado insistentemente. Era meu pai, pasmo e estarrecido em frente a TV. Naquele momento o piloto Ayrton Senna era dado como morto em um acidente em Ímola na Itália. No mesmo final de semana outros dois acidentes gravíssimos (com mais uma morte) aconteceram no mesmo circuito. Eu pensei: jamais entrarei em um carro de Fórmula 1. Corta.

Um dia como piloto de F1

Cena três. Maio de 2017. Um dos responsáveis pelo marketing da Renault, Cláudio Rawics, me telefona: “Henrique, arrume sua mala. Você embarca em uma semana para uma experiência incrível. Tenho certeza que você e os leitores da Car and Driver vão adorar”. Corta

Quarta cena. Madrugada do último dia do mês de maio de 2017. Estou em um Hotel na França, na região de Marselha. Não consigo dormir. Nem acredito que em poucas horas estarei pilotando um carro de Fórmula 1. O pior é que é preciso descansar, mas o sono não vem. Corta.

Cena cinco. Chego ao box. De longe já vejo o carro de F1 com as cores da Renault. Ao redor dele umas 10 pessoas entre engenheiros e mecânicos. É tanta gente mexendo em tanta coisa que nem dá pra saber o que cada um faz ali. Vejo um mecânico no computador e outro averiguando a pressão e temperatura dos pneus. Isso não é uma brincadeira. São milhões de dólares de pura tecnologia à minha frente. São cinco horas da tarde. Mas como estamos no verão europeu, o sol ainda é forte. Sou o último a andar, por isso todas as atenções se voltam para mim (o que não necessariamente quer dizer que isso é bom). Enquanto me aproximo do carro o nervosismo também aumenta. E só o que me vem a cabeça é: e se eu não conseguir sair com o carro?; e se eu deixar o motor morrer?; e se eu rodar com ele em uma curva? Enquanto a adrenalina vai subindo a níveis inimagináveis eu vou entrando no minúsculo cockpit. Mas antes é preciso voltar algumas horas e explicar como foi o meu dia.

Um dia como piloto de F1

PARA POUCOS

O programa da Renault acontece poucas vezes ao ano e um número mínimo de felizardos (e abastados) pode participar. É uma programação cara. Custa em média 8,5 mil euros ou quase R$ 30 mil sem contar os custos de deslocamento até Marselha, na França. Mas acredite, cada euro vale a pena. O meu dia começou às sete da manhã, quando cheguei ao autódromo de Paul Ricard, um circuito que recebeu a Fórmula 1 nas décadas de 1970 e 1980. Logo veio a primeira surpresa. No vestiário um armário personalizado com meu nome e dentro dele, macacão, capacete, mochila e squeeze para você já ir entrando no clima. Depois você participa de uma verdadeira maratona de palestras com explicações sobre o carro, do circuito e até como se comportar na pista.

Às nove horas começam os exercícios físicos. Isso mesmo. Apesar de ter preenchido algumas planilhas sobre meu estado físico quando ainda estava no Brasil, é aqui, em loco, que os organizadores do curso confirmam seus dados e checam se você está mesmo apto para dirigir um Fórmula 1. Alongamento, massagem e até teste de reflexo precisei fazer.

Às 11 horas você deixa a parte teórica e vai para a parte prática. Assim como em um cursinho ultrarrápido nós, os pilotos por um dia, damos voltas com um Fórmula Renault. Um carro com motor 2.0 de 200 cv que se torna extremamente rápido já que o conjunto pesa apenas 450 kg. A ideia e justamente se acostumar com um fórmula e com o desenho da pista.

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BIOTIPO DE PILOTO

14 horas. Depois do almoço (composto por refeição balanceada) e da digestão, mais uma sessão de treinos livres com o Fórmula Renault. Até que um a um, os participantes do programa são chamados para andar com a estrela do dia.

Às 17 horas chegou a minha vez. Entro com certa dificuldade no carro. Afinal tenho 1,80 e peso 86 kg. Esses carros são projetados para pilotos com biotipo mais franzino. Felipe Massa, por exemplo, tem 1,66 cm e pesa 59 kg. Acomodado no carro o instrutor explica algumas tarefas como colocar o volante na posição correta, tirar o cinto de segurança em caso de acidade ou como cortar a gasolina que vai para o motor em caso incêndio. Mais essa? Eu já estava nervoso com a grade quantidade de botões no volante, e eu ainda tinha que me preocupar com o que precisava fazer caso o carro pegasse fogo?

A propósito, o que é isso que inventaram para o piloto? Há uma quantidade infinita de botões e comandos na reduzida área do volante. Eu só tive que me preocupar com meia dúzia de comandos e, mesmo assim, foi difícil coordenar tudo isso ao mesmo tempo.

Um dia como piloto de F1

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THE END

Chegou a minha vez. Pista livre. Os mecânicos tiram as capas que aquecem os pneus a 100 graus. Empurram o carro até a linha de largada e então eles dão a partida. O ronco do motor faz meu coração disparar.  Recebo enfim autorização para largar. Parece fácil, mas não é. Enquanto eu acelero com o pé direito (para algo como 17.500 giros) vou soltado a embreagem bem devagar com a mão esquerda. Meio que aos trancos e barrancos deixo os boxes e ganho a pista de Paul Ricard. Um circuito onde Alan Prost fez história e Senna nunca venceu. O recorde da pista é do inglês Nigel Mansell com 1 minuto e 9 segundos. O meu tempo foi quase o dobro. Ou talvez bem mais que isso.

Vou fazendo as onze curvas do circuito com cuidado, afinal estou dirigindo o mesmíssimo carro que ganhou o GP de Abu Dhabi em 2012 pilotado por Kimi Raikkonen. São mais de 750 cv de potência em minhas mãos.

Enquanto corto a reta a mais de 200 km por hora tento me concentrar (e me lembrar) qual será a próxima curva. Afinal de contas os freios são precisos, mas para isso tenho colocar uma força de 80 kg no pedal para que seja eficiente. E depois de três voltas tenho de retornar aos boxes – sim, são apenas três voltas.

Meu dia de piloto de Fórmula 1 chega ao fim. Foi sem dúvida a mais fantástica e emocionante experiência profissional que tive. E que, como todo filme, uma hora termina.    

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