Especial Moto: sobrevivendo ao Globo da Morte

A moto roda velozmente dentro da gaiola de aço. No comando, nosso repórter

Por Cauê Aguiar // Fotos: Fábio Aro

O Globo da Morte é, talvez, a atração mais esperada do circo. Quando a esfera de ferro de quase 3 toneladas entra no picadeiro assentada em uma plataforma móvel, o público silencia. As luzes se apagam e a escuridão é cortada pelos fachos dos faróis das motos em movimentos circulares. E ainda há o ruído dos motores, em plena aceleração. “Há uma mística em torno do globo”, diz o americano John Stotts, um dos estudiosos do assunto. “Os espectadores ficam paralisados, envolvidos por aquela atmosfera, à espera que o pior aconteça.”

O perigo e a apreensão da platéia crescem conforme a quantidade de globistas, como são chamados os caras que zombam da integridade dos ossos, dentro da esfera. O ápice do espetáculo é quando seis globistas rodam, simultaneamente, dentro de uma circunferência de até 6,5 metros de diâmetro. Para aumentar a tensão, alguns globistas colocam uma assistente em pé, sobre uma base do tamanho de uma caixa de pizza, no centro do globo enquanto as motos passam a centímetros do corpo da moça.

NÃO!

O experiente piloto de enduro e cross country Cauê Aguiar topou o desafio de rodar no Globo da Morte. Ele conta: “A esfera à minha frente impressiona. É como estar diante de um instrumento de tortura em um porão úmido – não sugere bons pensamentos.” O nome composto também impressiona, embora a esfera seja um aparelho tão natural como o trapézio. Para este desafio, pedimos motos emprestadas para alguns fabricantes. Pagaríamos pelos danos que os veículos eventualmente sofressem. A resposta de todos foi negativa. A saída foi alugar uma Yamaha XTZ 125, uma das motos preferidas pelos globistas brasileiros.


NÃO SE MEXA!

O tamanho padrão dos globos que você vê nos circos e companhias itinerantes no Brasil é de 4,40 m de diâmetro. Foi nesse tipo de gaiola, do Circo Stankowich, que o piloto enfrentou o desafio de vencer o medo.

Charles Marinho, uma espécie de líder da trupe de globistas do circo, recebe Cauê Aguiar com desconfiança. “Você quer mesmo andar aqui dentro?”, pergunta com descrédito. Olha para a moto que inicialmente tínhamos escolhido, uma Kawasaki KX450F de competição e 60 cv, diz que seria impraticável tentar qualquer manobra com ela, dentro do globo – seria como acelerar uma superesportiva dentro do lavabo.

“Volte outro dia, com uma moto menor”, propõe. E sugere que o piloto entre a pé na esfera para sentir o clima, enquanto roda com a sua XTZ 125, ano 2000, com o pretexto de ensinar alguns truques praticados pelos globistas. “No fundo, achei que ele queria que eu desistisse da ideia”, diz Cauê.

O relato do piloto: “Fico paralisado na base do globo e, apesar dos vãos entre as lâminas de ferro, sinto sensação de claustrofobia. Deve ser o mesmo que sente um pássaro na gaiola. Charles liga a moto, a portinhola da esfera se fecha com um ruído seco e a única recomendação que consigo ouvir é não se mexa, garoto!”

Com a autoconfiança de quem pratica o número há 14 anos, Charles começa a girar dentro do globo, sem capacete e com a roupa com a qual nos recebera: camiseta, bermuda e sandália de dedo. “O guidão da moto passa velozmente, a uns 5 centímetros das minhas orelhas. Começo a sentir as pernas trêmulas e princípio de vertigem, quando me dou conta que Charles tira as mãos do guidão e se senta com as pernas para de fora da moto. Ele parecia estar se divertindo enquanto eu… Bem, eu não via a hora de chegar em casa para trocar a cueca”, relata Cauê.


CENTRÍPETA

A velocidade média dentro do globo é em torno dos 50 km/h, em segunda ou terceira marcha, dependendo da relação de transmissão. Normalmente, os artistas usam motos regulares com adaptação. A depender do diâmetro da esfera, que pode chegar a 5 metros, alguns globistas atingem 70 km/h.

“É preciso encontrar uma velocidade em que você se sinta seguro, que seja constante e que, ao mesmo tempo,  mantenha os pneus da moto em contato com as paredes da esfera, por efeito da força centrípeta”, explica Márcio Benelli, um dos globistas brasileiros mais requisitados para apresentações no exterior.

[Para quem fugiu das aulas de Física na escola, força centrípeta é aquela que puxa o corpo para o centro da trajetória em um movimento circular. Mas, tia, por que a moto não cai quando está no topo do globo? Porque a força é maior que os pesos da moto e do piloto somados].

VERTIGO

Na prática, rodar dentro de uma esfera requer, além de falta de juízo, muito treino. Israel Evans acumula as funções de globista, trapezista e de palhaço Mixirica no Circo Stankowich. Começou a andar no Globo da Morte, há 3 anos, para substituir um colega. “A gente começa andando de bicicleta, dando voltas na parte mais baixa do globo para perder o medo, ter noção de espaço e para aprender a lidar com a tontura.”

A vertigem é o maior problema de quem roda durante 15 a 20 minutos, tempo médio de duração do espetáculo: a visão fica turva, os ouvidos parecem explodir e uma sensação de enjoo começa a revirar o estômago. A vertigem não é eliminada, apenas amenizada. E a técnica para isso é olhar para um ponto fixo, à esquerda.

As técnicas para rodar dentro da gaiola de aço são mais complexas. Caso você queira seguir a carreira circense, um resumo:

Saída: sempre em primeira marcha. Como as rodas não ficam apoiadas no plano, é preciso embalar a moto em pêndulo, para frente e para trás,  modulando a embreagem; manter o pé direito no pedal de apoio e virar o guidão suavemente. Quase sempre se sai no sentido anti-horário;

Aceleração: suave, progressiva e constante. Quanto mais se abre o gás, mais a moto tende a subir pela parede da esfera. Nesse momento, você começa a ficar tonto;

Trajetória: com o guidão alinhado, a tendência é que a moto circule em linha reta. Para subir, é preciso acelerar, mover o guidão suavemente junto com movimento sincronizado do tronco. Você estranha a posição antinatural do seu corpo, mas não tem muito tempo para pensar nisso;

Desaceleração: é um dos movimentos mais críticos, pois o que mantém os pneus da moto em contato com a parede de ferro é a aceleração, como você viu em nossa aulinha de Física. Usa-se os dois freios (50% em cada roda), sempre com suavidade, enquanto se fecha o gás e aponta o guidão para a base em uma trajetória de espiral;

Parada: a moto nunca vai ficar nivelada, por causa das paredes circulares. Lembre-se disso, antes de colocar o pé na base do globo. E, importante: jamais tente fazer isso em casa.

As técnicas valem para qualquer manobra. Mas quando seis motos rodam simultaneamente, entram no picadeiro mais duas variáveis – o sincronismo e a sorte. Pense no seguinte: uma moto de baixa cilindrada, como as que são usadas pelos artistas do globo, tem cerca de 2 m de comprimento, pouco mais da metade da circunferência da esfera. Multiplique 2 por 6 e entenda porque sorte é um elemento fundamental nesse tipo de espetáculo.

Márcio Benelli fez parte da equipe que entrou no livro dos recordes, em abril de 2011, quando rodou com mais cinco motociclistas (e uma mulher estática, no centro do globo) da companhia francesa Infernal Varanne, em uma esfera de 4,25 m de diâmetro. “Três motociclistas rodaram na parte superior do globo e outros três na inferior. Não foi difícil porque todos rodaram no mesmo sentido, diz. “O mais arriscado é alternar  rotações horizontal e vertical: é quando ocorre a maioria dos acidentes”, conta Benelli.


MIXIRICA

Teoria decorada, faltava a parte prática – e o piloto tinha apenas alguns instantes para treinar. Para ser considerado um, digamos, artista global de primeira linha, o cara treina durante um ano.  “Quando a gente começa a dominar o espaço, o medo e a vertigem, passa da bicicleta para a moto e, geralmente, alguém com mais experiência fica parado no centro do globo, atento para nos segurar caso aconteça alguma cagada. Quase sempre acontece”, diz John Stotts. Depois que o iniciante aprende os macetes, começa a rodar em dupla. Só então é considerado habilitado para o espetáculo.

Bem, esta é a teoria. Israel, o palhaço Mixirica, por exemplo, teve poucas aulas antes de ouvir o locutor anunciar para o estimado público “o espetáculo mais perigoso da terra.” Entrou no globo e… nunca mais saiu. Há cerca de 60 praticantes do Globo da Morte no Brasil, de acordo com estimativa não oficial sustentada pelos próprios artistas. Boa parte atua fora do País. “Nossos melhores globistas são brasileiros”, afirma a assessoria da Infernal Varanne.Temos grande tradição nesta arte, desde que um italiano chamado Guido Concci chegou ao País nos anos 30 e formou uma geração de globistas.

PÊNDULO

Voltamos ao Circo Stankowich duas semanas depois com a moto que os globistas consideraram a mais adequada para nossa estreia, a XTZ 125. Israel/Mixirica nos recebe. “Achei que você tinha desistido.” Examina a moto enquanto o piloto coloco sua armadura de plástico. E pede para que abram a pesada portinhola da esfera. “Subo empurrando a moto pela estreita passagem. Meu instrutor me acompanha. Ensaio por alguns instantes a saída, deslocando a moto uns 10 centímetros para frente e para trás. Parecia muito – mas não era. Os artistas mais experientes dispensam o embalo inicial, mas eu não sou artista e minha única experiência dentro da esfera tinha sido a de estátua humana. Aos poucos, a distância de locomoção foi aumentando e, na mesma proporção, a adrenalina no sangue.

Minha roupa já estava encharcada de suor e não só por causa do calor: eu suava frio”, relata o piloto que montava em moto regular, dessas que você vê nas ruas, sem nenhum preparo. A relação da transmissão deveria ser mais curta e os pneus poderiam ser slick com 35 libras de pressão. Mas era o que tínhamos para o momento.

Israel pede que, junto com os movimentos de pêndulo, o piloto comece a esterçar o guidão. Cada vez que se abre o gás, a moto escala a parede, forçando a suspensão dianteira. Não é como subir uma rampa íngreme de terra, obstáculo que Cauê está acostumado a enfrentar nas competições: dentro do globo, não há espaço e, o mais grave, a aderência dos pneus sobre as lisas lâminas de ferro é precária. É como andar de meia de lã em piso encerado.

[Alguns globistas como Benelli têm seus truques para conseguir tração: lambuzam as lâminas de ferro do globo com Coca-Cola ou com água com açúcar. Também ajuda revestir a base da esfera com lixa. Mas tração ideal dentro da gaiola não existe].


HAMSTER

Cauê ensaia os movimentos por alguns instantes e diz que já tinha se dado por satisfeito com a experiência. “Poderia ter ido embora e, ainda assim, teria história para contar para meus netos. Mas algo acontece com você nessas circunstâncias: a gana de dominar o medo e enfrentar o desafio acaba sendo mais forte. Tem gente que chama isso de teimosia.”

O relato de Cauê:

Israel grita a ordem: “Vamos girar!” e instintivamente abro o gás e, seguindo as recomendações, jogo a segunda marcha assim que a moto começa a escalar a parede. Me faltaram a classe e, principalmente, a tranquilidade de um profissional nesta minha primeira apresentação – sim, eu estava apavorado. Mas, afinal, eu estava contornando o globo na horizontal!

Como é? Terrível! Não há horizonte, mas uma reta infinita, e faltam pontos de referência. A aderência é precária e a sensação é que você pode despencar e torcer o pescoço ao menor vacilo. A intimidade com os comandos da moto ajuda, mas só isso não basta: você está em  posição antinatural e é difícil fazer seu cérebro aceitar isso. É como obrigar um destro a escrever com a mão esquerda plantando bananeira: dá pra fazer; mas não dá.

Dei umas vinte voltas à meia altura da esfera, mas não tenho a mínima ideia da velocidade em que rodava. Sei que parecia muito rápido. O fato é que tive de parar por causa da tontura que deixou minha visão turva e meu estômago no pescoço. Israel percebe a situação e segura a moto com as mãos.

Desacelerar, o piloto viu na prática, é a manobra mais crítica: na medida em que a moto vai perdendo força, a sensação é de que o corpo vai se estatelar contra as ferragens. É Cauê falando: “Aponto a roda dianteira para a base do globo e, completamente tonto, consigo parar a moto. Leva um tempo para você colocar os pés no chão sem ter a enjoativa sensação de que o globo está girando ao seu redor. Passei a respeitar e admirar ainda mais os globistas. E os hamsters.”

Depois da experiência, Israel cumprimenta o piloto. E o convida para fazer parte do time. Cauê está considerando a possibilidade.

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