Especial Tecnologia: como será o trânsito no futuro?

As gigantes ZF e Bosch mostram sua visão para a mobilidade automotiva das próximas décadas

Fotos: Divulgação | Texto: Lucas Litvay e Luiz Guerrero

Na imagem abaixo, cena cotidiana do trânsito de Uttar Pradesh, na Índia, estado com quase 200 milhões de habitantes. Na ilustração acima, a cidade vislumbrada por dois dos maiores fornecedores da indústria automotiva, a ZF e a Bosch. Ambos promoveram, quase simultaneamente nos últimos meses, seus encontros bienais para mostrar os últimos avanços em tecnologia e revelar a visão que cada um deles tem sobre a mobilidade futura.

Carros autônomos, soluções avançadas de segurança e alternativas mais em conta para transformar veículos com motor a combustão em híbridos, foram algumas das tecnologias apresentadas. Lucas Litvay foi à Áustria cobrir o encontro da ZF e Luiz Guerrero, à Alemanha para acompanhar a apresentação da Bosch. Em comum, o que foi visto (e que poderá ser aplicado antes do que você pensa) revela a preocupação de ambos os fornecedores em reduzir o número de vítimas do trânsito e a poluição. E de tornar as megacidades do futuro em locais um pouco mais toleráveis.

Mobilidade futura

TOLERÂNCIA ZERO

Hollywood colocou na cabeça de duas gerações de seres humanos que o futuro do carro é o céu. Aqui vai uma má notícia a você fã de ficção científica: os carros não vão voar. O destino do automóvel é terráqueo e pragmático. Para a alemã ZF, multifabricante de auto-peças, o carro do futuro vai ser zero. Zero emissor de poluentes e zero causador de acidentes. E para que o segundo objetivo ocorra, os veículos serão obrigados a eliminar uma peça importante: você. 

No mundo, as falhas humanas são responsáveis por dois terços dos desastres de carros. Por conta disso, as principais empresas que criam o futuro do carro, como a ZF, trabalham em novos sistemas de direção assistida e autônoma que minimizem seus erros, seja através de alertas ou auxílios de emergência aos motoristas distraídos ou assumindo integralmente o controle do veículo. Em seu evento bienal, em um campo de provas na cidade austríaca de Pachfurth, a fabricante fundada por Ferdinand Zeppelin (o mesmo do dirigível) há 102 anos, apresentou o conceito Vision Zero Vehicle, que reúne em um só modelo tecnologias assistidas e autônomas de segurança ativa e passiva de até nível 5. A expectativa é que modelos dessa categoria estejam à venda em até oito anos.

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O Vision Zero usa um sistema de acionamento elétrico do eixo com 150 kW de potência. A unidade de tração compacta integra um motor elétrico, uma transmissão de uma velocidade de dois estágios, um diferencial e uma unidade eletrônica. Esse módulo fica alojado em um sistema modular de eixo traseiro da ZF chamado de mStars (do inglês Modular Semi-Trailing Arm Rear Suspension), que ajuda a eletrificação de plataformas de automóveis de série já existentes. A solução é eficiente para modelos híbridos, com célula de combustível ou acionados com bateria, além de possibilitar a combinação com módulos convencionais com tração nas quatro rodas ou com a direção ativa do eixo traseiro AKC – onde um pequeno esterçamento das rodas traseiras complementa o trabalho do eixo dianteiro. Isso para facilitar seu trabalho na hora de manobrar.

O Vision Zero Vehicle é equipado com diversos sistemas mecânicos inteligentes. Ou seja, ele permite que você escolha entre modos de direção assistida ou totalmente autônoma – quando o motorista não precisa usar nem os pés e nem as mãos. Um dos sistemas de direção assistida mais efetivos é o Driver Distraction Assist, entenda como assistência ao motorista distraído, que reconhece quando seus olhos não estão olhando para a frente. Na Alemanha, a terra da cerveja, a distração ao volante mata mais que o álcool. A tecnologia utiliza uma câmera interna baseada em laser que faz o monitoramento tridimensional da posição da cabeça do motorista tanto de dia como de noite, mesmo com pouca luminosidade. Assim, o sistema tem a capacidade de perceber imediatamente se o motorista desvia seu olhar do trânsito. Depois de constatar a distração, o sistema emite uma sequência de indicações visuais no display central, sinais acústicos e vibrações no cinto de segurança. Paralelamente, o programa assume ativamente o comando e mantém o veículo na faixa de rodagem, mesmo nas curvas. Caso você insista na distração, a tecnologia reduz continuamente o torque e, se a desatenção persistir, não permite mais a aceleração e de forma gradual para o carro.

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CONTRA-MÃO

Outra tecnologia de direção assistida que é equipado o conceito da ZF é o Wrong-way Inhibit – em português inibidor de contramão. Aqui, a ideia é evitar ativamente que alguém dirija na contramão, uma imprudência que muitas vezes traz consequências fatais. Nos EUA, por exemplo, 360 pessoas morreram dessa forma no ano passado. O Vision Zero Vehicle reconhece o caminho e o sentido correto de condução por meio de mapas de alta precisão permanentemente atualizados em nuvem e pelo sistema de câmera frontal, que lê e interpreta exatamente as placas de sinalização e as marcações da pista. O sistema entra em ação tão logo o motorista indica com a seta e um movimento do volante que pretende entrar em uma rua ou estrada em sentido contrário ao permitido – seja por descuido, baixa visibilidade ou falta de orientação. Imediatamente o sistema reduz e velocidade e para o carro. Na sequência, os faróis e o pisca-alerta são ligados para alertar os veículos que estão no sentido correto de condução. Na sequência, o Wrong-way Inhibit te dá a opção de continuar em frente ou engatar uma ré e retornar à via anterior. “Se você perguntar ao consumidor o que ele quer, na verdade ele não sabe o que quer. Nós da ZF sabemos onde queremos chegar: zero emissões e zero acidentes, mas o caminho para isso ainda é incerto”, diz Peter Lake do board da empresa. “Em grandes centros urbanos, é consenso que haverá uma frota crescente de carros autônomos. Isso é um caminho sem volta.” E o futuro sem você ao volante está na próxima curva. (L.L)

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MOBILIDADE DO FUTURO

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O tema deste ano do encontro bienal que a Bosch promove em seu campo de provas de Boxberg, a 150 km de Frankfurt, na Alemanha, foi Experiência da Mobilidade. Infelizmente, os brasileiros não vivenciarão a mesma experiência tão cedo: inteligência artificial aplicada aos veículos autônomos, cidades inteligentes livres de acidentes, de emissões e de congestionamentos, e baterias elétricas de baixo custo foram algumas das tecnologias mostradas pela empresa em junho.

A Bosch, que começou em 1886 fabricando sistemas de ignição, é o maior fornecedor da indústria automotiva, com volume de negócios em 2015 de cerca de US$ 45 bilhões. E investe mais de 7 milhões de euros por ano em pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias. Em 2015, a empresa destinou 310 milhões de euros para construir seu centro de pesquisa, em Renningen, também na Alemanha, um conjunto de prédios futuristas que abriga 1.400 cérebros. "Além da parceria com os fabricantes de automóveis, estamos investindo em serviços", diz Rolf Bulander, responsável pela divisão de soluções de mobilidade da Bosch.

As cidades inteligentes são um dos exemplos desse tipo de serviço. A empresa tem projetos em 14 cidades, como São Francisco (EUA) e acredita que até 2025, 80 metrópoles seguirão na mesma linha de transportes e serviços integrados, conectados e compartilhados. Em uma cidade inteligente, a iluminação pública é reduzida quando as ruas estão vazias e voltam a brilhar quando há movimento; os prédios se ajustarão à temperatura e à iluminação ambiente; e os veículos encontrarão, a um simples comando, espaço para estacionar. É o que tornará suportável, segundo a Bosch, a rotina de estimados 6 bilhões de pessoas que viverão nas megacidades até 2050.

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AUTONOMIA

Veículos autônomos farão parte deste cenário. “Se há cinco anos alguém me dissesse que os carrosseriam autônomos, eu perguntaria o que o sujeito fumou de manhã. Mas hoje os autônomos são um fato irreversível”, diz Stephan Stass, um dos responsáveis pela área de assistência ao motorista da empresa. “É a única maneira de evitar o caos nas megacidades.” Os assistentes de condução são sistemas já conhecidos por alguns brasileiros (e que equipam carros produzidos aqui). Estamos falando do controlador automático de velocidade, do mecanismo de frenagem de emergência automática, dos assistentes de permanência em faixas e de estacionamento, entre outros. Quando atuam em conjunto e recebem o suporte de radares, sensores e câmaras, representam o primeiro passo para a direção autônoma.

Com base em dados de órgãos de segurança de trânsito, a Bosch mostra que o número de fatalidades na Europa caiu de 31.400 vítimas em 2010 para 26.100 em 2015 com a introdução do sistema de frenagem automática. Em 1990, quando os sistemas de assistência não eram obrigatórios, o número de vítimas no continente passava dos 76 mil. “O freio automático de emergência atua 1 segundo mais rápido que o motorista”, exemplifica Stass. Ele diz que o próximo passo dos sistemas de auxílio ao motorista será interpretar o trânsito e prever, via inteligência artificial (I.A), qualquer anormalidade. O carro, então, assume o controle. A Bosch emprega 3 mil engenheiros dedicados  somente à área de I.A. Ao todo, a empresa mantém 48 mil funcionários no setor de pesquisa e desenvolvimento em todo o mundo e está abrindo mais 4 mil vagas até o começo de 2018.

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Uma volta como passageiro no protótipo do Tesla conduzido por um técnico da empresa no circuito misto de Boxberg nos mostra o funcionamento da I.A. A Bosch desenvolveu o nível 3 de direção autônoma do automóvel, em que o motorista só assume o controle em eventuais falhas do sistema. O programa de direção autônoma é composto por cinco níveis definidos pela SAE, a Sociedade de Engenheiros Automotivos – do nível 1, que consiste nos sistemas básicos de auxílio ao motorista, ao 5, de automação completa, previsto para ir às ruas em 2030. O prazo para a conclusão do nível 3, de automação condicional, é até 2021.

O Tesla se autoconduz em roteiros programados, desvia de obstáculos e prevê situações de risco. Uma câmera instalada no do cluster identifica o motorista e detecta sinais de fadiga ou de distração. Em qualquer um dos casos, o Tesla emite alerta e para se não houver reação do motorista.

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Para se comportar desta maneira, um conjunto de cinco câmeras, cinco radares de médio alcance, 12 sensores ultrassonicos e outro par de scanners são instalados no veículo. "Além de evitar acidentes, um carro autônomo reduzirá os congestionamentos em até 80%, consumirá menos 39% de energia e proporcionará ao motorista 56 minutos livres por dia para que ele se dedique a tarefas mais produtivas e menos estressantes", calcula Charles Degustis, da divisão de automação avançada da empresa. (L.G)

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