EcoXCruze: bichos diferentes, mesmo habitat

Ambos disputam mesma presa que tem R$ 70 mil no bolso

Por Ícaro Bedani / Fotos: Bruno Guerreiro - publicado na edição nº 59 (nov/2012)

 

O editor Gustavo Ruffo se espantou quando viu o comparativo entre o Ford EcoSport e o Chevrolet Cruze na programação das reportagens desta edição. “E esse comparativo maluco aqui?” Explica-se: os dois carros disputam o mesmo tipo de comprador, mesmo com roupagem diferente. A começar pelo preço. Em suas versões mais caras, tanto o SUV quanto o sedã têm etiqueta salgada: o primeiro sai por R$ 70.190 e o segundo R$ 75.438. O recheio é compatível, e ambos oferecem equipamentos importantes para o público. E o mais importante: a dupla é o que há de mais moderno para jovens famílias. É o melhor da moda que você pode encontrar hoje nas lojas dentro desta categoria. Ressalvas feitas? Então, vamos ao comparativo fora dos padrões.

 

Seria mais fácil – para mim e para você – escolher entre o Ford EcoSport e o Renault Duster, claro. Mas, como você conferiu na C/D 56, o Renault já perdeu essa briga. Colocar o Ford diante do Cruze, neste caso, é tão curioso quanto inevitável. O Chevrolet passou o Honda Civic, em março com 3.658 unidades emplacadas, 83 a mais que o japonês, e, em agosto, desbancou o Toyota Corolla da liderança do segmento, com uma diferença de 180 carros. Ao lado do Volkswagen Jetta Turbo, o Cruze é um dos três volumes mais divertidos do mercado. Então, a não ser que você seja um defensor fervoroso da teoria “quanto maior, melhor”, não faça drama caso pinte a dúvida entre comprar um SUV ou um sedã. Vá de sedã.

Irmã Mary Clarence

O sistema de mídia Sync com comando de voz e auxílio de estacionamento, de série desde a versão Freestyle 1.6, é um atrativo legal do Eco. Ele mostra, na tela azul central, que estou ouvindo a doce voz de Fontella Bass cantando Rescue Me. Lembrei-me do filme "Mudança de Hábito", em que a cantora Deloris Van Cartir, interpretada por Whoopi Goldberg, vira freira e troca sua identidade para irmã Mary Clarence devido a uma ameaça de assassinato. Assim é o EcoSport, um Fiesta com hábitos transformados: posição de dirigir elevada, suspensão menos esportiva e fôlego de sobra. A plataforma tem características comuns para hatch e SUV e o conceito Kinetic de design é o responsável pela bela beca do Eco. Só que a roupa da moda encobre o acabamento simples. É muito plástico rígido e rebarba espalhada pelo painel e nos forros das portas, ao contrário do Cruze, que exibe montagem esmerada e mais agradável às mãos. Um vão entre a tampa do porta-malas e a coluna C do EcoSport denuncia o descuido na construção, e os rangidos da suspensão vão te obrigar a rodar com o som alto.

ford ecosport

Estilo e força do motor 2.0

Acabamento e qualidade

Chame atenção e suporte os ruídos

Outra coisa bacana do EcoSport Titanium, além do paramento de dar inveja à irmã Clarence, é o motor Duratec 2.0 16V de 147 cv e 19,7 mkgf (com etanol). Mesmo sem contar com duplo comando variável de válvulas, como no Cruze, e ser um tanto ruidoso, devido ao comando de válvulas por corrente, o casamento com o câmbio manual IB5 Plus de 5 marchas é abençoado. O motor roda cheio e, mesmo em ladeiras, o EcoSport faz inveja para o sedã. Além de ser R$ 5.248 mais barato que o Cruze, o SUV conta com bom pacote de equipamentos: air bags laterais, de cortina e duplo dianteiro, ajuste do volante e do banco do motorista, ar-condicionado... A viagem fica confortável com o banco de couro, concordo, mas falta espaço para bagagem – o porta-malas tem 362 litros, 88 litros menos que o da GM. Em suma, o EcoSport evoluiu bastante nesta geração. É legal, está na moda, mas tem descuidos que nem Mary Clarence perdoaria. 

Existe uma explicação satisfatória para a vitória do Cruze neste comparativo: ele parece, realmente, valer o que pede. E não é por nenhum motivo subjetivo. Olhe as fotos ao lado. O painel do sedã é revestido de plástico emborrachado  e envolve os passageiros, ele tem comandos cromados e plástico com boa dose de borracha. Características de sua terra natal, a Coreia do Sul, onde foi projetado. Você fica bem encaixado nos bancos e o volante tem amplo ajuste de profundidade e altura. A direção firme e direta, somada ao bom acerto da suspensão (que suportou bem até este terrão aí embaixo) faz com que o Cruze contorne curvas como poucos. Tente repetir o mesmo com o Eco. Pensando bem, melhor não.

Em nosso último comparativo entre carros da mesma espécie, na C/D 46, o Cruze perdeu. Ele não foi páreo para o bom motor do Toyota Corolla e estava caro demais para bater o Renault Fluence. Mas, ainda assim, continua uma escolha inteligente. Do motor 1.8 Ecotec6, a Chevrolet conseguiu extrair 144 cv a 6.300 rpm e 18,9 mkgf de torque máximo aos 3.800 rpm. O câmbio automático GF6 de seis marchas é refinado, embora em alguns momentos ele te faça exercitar seu lado zen por esticar demais as marchas – a terceira pode chegar aos 5.000 rpm, por exemplo. 

Sedã Sapiens

Além de emitir ar de bacana – e se sobressair nas atenções tanto quanto o EcoSport – o Chevrolet manda bem na lista de equipamentos, com destaque para o GPS de série, não disponível nem como opcional no Ford.

Chevrolet cruze

Espaço e cara de semimagnata

Mais caro e câmbio instável

Vale o que custa!

A dúvida entre sedãs médios e utilitários esportivos é sustentada por ambos terem, na essência, a mesma missão de vida. São carros voltados para a família, com bom espaço interno e nível de requinte na medida para quem está de saída da classe média pela porta de cima. O EcoSport melhorou bastante, evoluiu em todos os aspectos, não há dúvida. Ficou robusto, elegante e bem equipado. Só que, diante do Cruze, o SUV da Ford escorrega, principalmente, em ergonomia, acabamento e qualidade de construção. E, na boa, são descuidos difíceis de serem perdoados por você que acabou de gastar mais de R$ 70 mil para entrar na moda. 


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