Arte Perdida: a secular técnica de reparar bronzinas

Conheça o trabalho artesenal de Alec Giaimio, o herdeiro de uma das técnicas mais antigas na reparação automotiva

Fotos: Richard Pardon | Texto: Sam Smith

Quando ele acende o queimador, o pote está frio. Ele é de cerâmica e tem mais ou menos o tamanho de uma lixeira pequena, e praticamente fundido com o pedaço de metal que está dentro dele, misturado com antimônio e cobre, talvez com uns 45 kg no total. O negócio fica instalado em um carrinho de aço, próximo a outro pote virtualmente idêntico, que está cheio de metal frio. Há um queimador embaixo de cada um.

Em cerca de 30 minutos aqueles queimadores irão derreter o metal, e os potes se tornarão quentes demais. Depois, Alec Giaimio, dono do carrinho, irá despejar o metal em uma biela. "Conheci um cara que fazia isso desde 1926. Eu precisava de um reparo de bronzina para um velho Delage e ele teve um trabalhão para acertar a linha de centro do virabrequim (aquele Delage tinha três comandos) então eu o ajudei. E ele me ensinou como usar metal branco."

Giaimio é um reparador de bronzinas babbitt. Ele vive na região de São Francisco (EUA), e é considerado um dos melhores colocadores de babbitt da Terra. E como o uso automotivo dessas bronzinas está obsoleto, ele também é um dos últimos. Se você tem um carro de pista ou de rua anterior à Segunda Guerra, é quase certo que ele usa babbitt no motor. Se o carro é usado com frequência e não estoura o motor com frequência, é porque Giaimio já colocou as mãos em suas entranhas.

Babbitt é um termo usado para uma liga metálica usada em bronzinas, mais conhecida no Brasil como metal branco. Também é um processo. Imagine o virabrequim em um motor a combustão. Ele gira e está sujeito a centenas de quilos de força. Ele precisa girar sobre algo. A solução moderna para isso é a bronzina hidrodinâmica, uma peça substituível de metal que fica entre o bloco e o virabrequim. A maioria dos motores tem vários destes, incluindo dois em cada mancal do virabrequim. Mas eles também são usados em outros componentes rotativos, como os comandos de válvulas e as bielas.

Os motores modernos despejam óleo pressurizado nestas bronzinas, o que as ajuda a permanecer vivas. Esta é a parte hidrodinâmica: se o motor estiver saudável, as bronzinas não tocam nada (uma camada de óleo sustenta as peças rotativas). Mas as bronzinas se desgastam como qualquer componente. Quando isso acontece, a própria construção destas peças facilita sua substituição: você abre o motor, geralmente durante uma retífica, tira as bronzinas com a unha e coloca as novas.

BENEFÍCIOS

Nem sempre foi tão fácil. Até meados do século passado, a maioria das bronzinas era feita pela colocação de metal líquido no lugar – um cara com uma concha de fundição, um queimador e um pote cheio de liga metálica. Ele aquecia o metal para derretê-lo e então o despejava no lugar certo. Quando o metal resfriava e endurecia, cerca de 30 s depois, ele fazia o acabamento com ferramentas de usinagem.

O processo e a liga metálica são batizados com o nome de um ourives nascido em Boston no século XIX. Em 1839, Isaac Babbitt patenteou um tipo de bronzina para eixos de vagões de trem. A descrição de sua patente descreve, quase como uma reflexão tardia, que ele havia criado uma liga para a superfície de carga das bronzinas. A estrutura do metal de Babbitt ajudou a torná-lo resistente à gripagem, o desgaste produzido pela adesão temporária durante o deslizamento, e, em um nível microscópico, ele tem uma capacidade impressionante de transportar óleo. Foi um benefício importante para os primeiros automóveis, muitos dos quais não eram equipados com bombas de óleo e dependiam apenas da lubrificação por salpique – a esperança calculada de que um motor em funcionamento espalharia óleo suficiente em suas próprias entranhas para se manter vivo. Era uma mistura de engenhosidade, fundição e fé.

O segredo está na aplicação. A metalurgia é uma ciência, mas os resultados da aplicação de metal branco devem ser dimensionados visualmente e sensitivamente, o que significa que a prática inclui uma dose saudável de arte. Mesmo os motores mais moderados submetem suas bronzinas a forças que machucariam gravemente um ser-humano. Se o metal branco não for aplicado corretamente, ele acabará danificado sob essa carga e acabará quebrando o motor. E fazer uma bronzina babbitt imperfeita não é difícil. Você pode despejar o metal rápido demais, muito devagar ou na temperatura errada. Ou usar a proporção errada para fazer o metal branco, ou impurezas na liga metálica. A lista é grande.

Reparação bronzinas

CONFIANÇA

Como em qualquer solda você pode matar uma boa aplicação devido a um preparo mal feito ou material e ferramentas inadequadas. O metal despejado não pode ter porosidade, tem que aderir adequadamente à superfície da peças, e precisa se solidificar no tempo certo, não pode ser rápido nem lento demais. E diferentemente de uma solda mal feita, uma bronzina babbitt mal feita nem sempre tem aparência ruim.

Artesãos como Giamio são profissionais de confiança. Como todas as habilidades que envolvem química e sensibilidade, o processo varia com a aplicação. Um Modelo T irá funcionar para sempre com soldas maiores que as de um Bugatti Atlantic; um mecânico de fundo de quintal pode refazer as bronzinas de um destes motores em uma manhã. Um oito-em-linha da Alfa Romeo – uma obra-prima cuja retífica pode custar mais que uma Ferrari zero – pode levar até 12 horas nas mãos de um artesão experiente.

O surgimento das bronzinas modernas transformou as bronzinas babbitt em raridade, mas o metal branco em si está longe de desaparecer. As bronzinas multicamadas modernas normalmente têm uma camada de babbitt, bem como os propulsores dos submarinos militares (rolamentos esféricos fazem um ruído que pode ser detectado por sonares). Para resumir, qualquer motor industrial gigantesco do planeta usa esse tipo de metal. O grampo de biela dos anos 1920 que Giaimio usa até hoje veio da oficina de San Leandro onde ele aprendeu o oficio. Seu fornecedor da liga, a United American Metals, vendeu o metal para a Isotta Fraschini e para a o lendário engenheiro Harry Miller, famoso por seus carros da Indy 500.

É impossível não ficar admirado com uma técnica mais antiga que o próprio automóvel, mas que ainda continua sendo a melhor solução para alguns de seus problemas. A moldagem de bronzinas babbitt vem de uma época em que praticamente qualquer peça de um carro novo podia ser reproduzida em uma oficina local, mas ela não é simples nem fácil de compreender. É algo que depende apenas de metal e alquimia. E como a maioria das boas coisas mecânicas, algumas ferramentas e um pouco de fé. 

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