Arte da Pista: suavidade é velocidade?

Questionando o dogma: suavidade na hora de pilotar não pode ser confundida com a falta de agressividade

Por David Zenlea // Foto: Divulgação

Suavidade é velocidade. É a regra de ouro da pilotagem. Se você já foi a uma escola de pilotagem ou qualquer evento de pista, já deve ter ouvido algo do tipo. Mas é possível ser suave demais? Bem… sim e não.  A ideia é que movimentos controlados e suaves maximizam a tração e resultam em voltas mais rápidas.

MILISSEGUNDO

Esse pensamento data dos primórdios do automobilismo e prevalece nos níveis mais altos do esporte. "Fangio foi o mais suave que eu já vi. O carro nunca balançava demais", diz Sir Jackie Stewart, tricampeão de F1 e porta-voz da suavidade ao volante. Ele argumenta que os melhores pilotos, de Jim Clark a Sebastian Vettel, cuidam para não abusar dos carros. E Ayrton Senna? "Acho que Prost era melhor", diz Stewart.

Aprender essa suavidade é algo que funciona bem para iniciantes, uma vez que encoraja a exploração segura e gradual dos limites do carro. "Não dá para pular essa parte", diz Jeff Purner, chefão da academia de pilotagem da Porsche nos EUA.

Para quem está parado na vala comum entre o bronco e a lenda, contudo, uma obsessão com a suavidade pode jogar contra. "Há pilotos suaves e relaxados, mas que brigam para andar mais rápido", diz Purner. "Eles ficam tão sintonizados com a suavidade e deixam fluir, que acabam não evoluindo".

O que eles não entendem é que embora os movimentos e comandos precisem ser suaves, também precisam ser rápidos. "A suavidade não pode ser confundida com a falta de agressividade", diz o campeão da IMSA GT, Tommy Kendall. "Às vezes ela é violenta". Considere, por exemplo, este conselho de Stewart: "O primeiro milissegundo do acionamento dos freios tem que ser muito suave". Entende? Ele disse "milissegundo". Depois disso, se você não abusar do freio, perderá ponto. "Um segundo de frenagem abaixo do máximo a 160 km/h é muita distância", ressalta Purner. Ele diz que os vídeos e os dados frequentemente mostram pilotos intermediários com velocidades de saída de curva aceitáveis, mas que precisam de mais tempo que os profissionais na entrada da curva. Se seus tempos de volta pararem de melhorar depois de alguns track days, talvez você precise experimentar e forçar mais. Se você errar uma ou duas curvas, considere parte do aprendizado. "Descobrir quão abaixo do limite você está é um ótimo exercício. Em certo ponto você chegará ao limite".

Tenha em mente que o objetivo não é pilotar como em Velozes e Furiosos. Invista em um gravador de dados de desempenho para determinar quando a agressividade recompensa e depois pratique, pratique e pratique.

Kendall menciona com orgulho que os passageiros desinformados acham que ele é lento porque dirige com muita suavidade. Este nível de técnica refinada é o que separa os melhores do resto, no fim das contas. O que os torna pilotos de ponta. Eles são rápidos porque são suaves, mas também são suaves porque são rápidos

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