Ariel Nomad, o carro perfeito para o mundo pós apocalíptico

Um buggy para dunas que acelera como os botes de uma víbora

Fotos: Dw Burnett | Texto: Bob Sorokanich

Apocalipse Zumbi. Não é apenas um clichê; é praticamente o ponto de partida padrão quando se escreve sobre um carro como este. O Ariel Nomad, com seu perfil de tatu, parece ter sido criado por um sobrevivente no último posto de socorro da humanidade. É meu objetivo, portanto, explicar o Nomad sem mencionar a palavra zumbi novamente.

Talvez você tenha ouvido falar do Ariel Atom 3S, um kart britânico de 365 cv com estrutura suficiente para levar um motor, dois passageiros e, por incrível que pareça, um par de placas de registro. É bruto e incrível, o antídoto perfeito para o típico automóvel moderno. Agora imagine uma alternativa parecida com o Atom, porém mais robusto, com suspensão mais macia e adequado para terrenos que deixariam o Ariel parado sobre uma poça de seu próprio óleo. Isso é o Ariel Nomad.

Como o Atom, o Nomad usa o motor 2.4 do Civic Si da geração anterior. Este motor, mais a excelente transmissão de seis marchas da Honda e um diferencial de deslizamento limitado ficam espremidos atrás dos bancos do Nomad, movendo as rodas traseiras. Na versão aspirada o motor produz 235 cv a 7.200 rpm e 27,6 mkgf a 4.300, suficientes para levar o Nomad de zero a 100 km/h em 3,4 segundos e à velocidade máxima de 201 km/h. Com um compressor opcional o Ariel vai aos 300 cv e ganha uma aceleração digna de um bote de víbora.

A TMI AutoTech, que monta o Ariel nos EUA, trouxe dois Nomad à Califórnia para que pudéssemos conhecê-lo. O modelo Tactical, pintado com um tom de areia, calça pneus Yokohama Geolandar Mud Terrain de 30 polegadas, e tem amortecedores tipo coil-over ajustáveis, um guincho elétrico na dianteira e um conjunto de roda e pneu sobressalente. O modelo Sport, pintado de vermelho, usa pneus mais amistosos para o asfalto, os Yokohama Geolandar All Terrain de 225 mm e rodas de 18 polegadas. Ele estava equipado com o compressor opcional de US$ 7.000, que é oferecido nas duas versões e também traz uma embreagem reforçada para lidar com o torque extra.

Na descolada Monterey os dois Nomads pareciam deliciosamente deslocados. Mas depois de uma passada rápida pela Highway 1 encontramos um local mais apropriado para estes velozes todo-terreno: Fort Ord, um posto do exército americano criado em 1917 e abandonado desde 1994. Hoje ele poderia ser o cenário perfeito para um filme de zumb… digo, sobre o declínio pós-social da humanidade como conhecemos. Fui até o local na versão Tactical.

Ariel Nomad

MINIMALISMO FANTÁSTICO

Entrar no Nomad é algo que exige uma coreografia estranha: coloca o pé aqui, agarra ali, abraça nisso, se abaixa por ali, aí você faz uma posição de ioga e depois é só se jogar no banco de competição aparafusado diretamente no chassi. O cockpit tem um volante Momo de saque rápido, um quadro de instrumentos digital, um trambulador sem coifa, um freio de mão tipo rali, dois bancos quase nada estofados e toda a luxuosidade de uma moto ano 1997. Uma pequena bolsa pendurada na estrutura do carro (outro opcional) faz o papel de porta-luvas. Os únicos outros recursos do interior são meteorológicos.

Dirigir o Nomad nas ruas da cidade parece uma fuga alucinada, como se você fosse um garoto de nove anos de idade que finalmente criou coragem de levar seu carro de pedal para a rua. O minimalismo fanático da Ariel permite que você ouça, sinta e cheire tudo – apesar do cinto de quatro pontos e de não ter um retrovisor interno, você se mistura ao trânsito e vai em frente confiando na capacidade do carro em superar qualquer coisa que esteja nas ruas. A menos que o outro carro seja um Bugatti Chiron, você será capaz de fazer a ultrapassagem. Pneus lameiros e curso de suspensão longo não deveriam combinar com uma aceleração dessa, e o ronco do motor Honda nunca foi tão forte. E mesmo assim você está lá, trocando as marchas a 7.600 rpm e assistindo a suspensão dianteira esticar quando a frente do carro levanta a cada troca.

O Sport, com seu compressor e suas rodas e pneus mais leves, é ainda mais brutal. O compressor movido por correia grita direto na sua orelha direita a qualquer ponto acima dos 30% de aceleração. Ele leva a relação peso/potência do Nomad para além da sensatez; com o motor flutuando sobre as rodas motrizes, encontrar tração é algo que demanda dedicação. Na Highway 1 o motorista de um Challenger Hellcat se viu confuso, depois furioso e depois surpreso com o avanço do pequeno foguete em forma de buggy. Ao menos foi assim que ele parecia, enquanto encolhia rapidamente nos retrovisores de motocicletas estilo naked do Nomad.

Carros off-road também não deveriam ser assim tão ágeis. Se você levar o Nomad Sport para uma estrada sinuosa a suspensão trabalha apenas o suficiente para não sobrecarregar os pneus antes de se assentar. Não dá para chamar de rolagem da carroceria – nenhuma dessas palavras é adequada aqui – mas o movimento é empolgante e a aceleração na saída das curvas dá trabalho para seus pulmões. É como dirigir um Miata se o Miata tivesse um tanque de óxido nitroso do tamanho de um labrador e você e o carro estivessem nus.

O Tactical, que é um pouco mais leve, tem paredes laterais mais altas e coilovers de curso mais longo, inclina um pouco mais, porém com a aderência e equilíbrio que qualquer coisa com pneus lameiros jamais teria. As duas versões têm uma caixa de direção sem assistência incrivelmente rápida (1,7 volta de batente a batente), que é firme e comunicativa o bastante para evocar os músculos que você já não usava desde a popularização das direções hidráulica e elétrica.

Imagine levar um desse, com pneus de jipe, a um track day e fazer os donos de esportivos compactos passarem vergonha com um a sequência interminável de sobre-esterços hilariantes. Eles vão te adorar por promover a Honda de forma tão radical ou vão te expulsar do circuito. Se isso acontecer, pegue a esquerda em uma estrada de terra e caia fora.

Ariel Nomad

CONFIÁVEL COMO UMA MARRETA

Foi praticamente isso o que fizemos ao sair da rodovia para entrar nas ruas sem vida de Fort Ord. Fort Ord chegou a ter 50.000 habitantes durante a Segunda Guerra Mundial. Hoje ela é uma cidade fantasma espalhada por um território quase tão grande quanto San Francisco. A cada quarteirão depósitos enormes e igrejas em ruínas brotam do asfalto craquelado, escondidos por trás da vegetação que há tempos deixou de obedecer aos limites pavimentados. À medida que eu adentrava esta base desolada, as capacidades dicotômicas do Nomad começavam a fazer sentido. As estradas não tinham barricadas, mas a falta de conservação tornou a maioria dos trechos impraticáveis para os esportivos convencionais – mato, troncos caídos e pedriscos tornaram as estradas retas em uma sequência de slalom.

Passando por ali, ouvindo o motor ecoar entre os prédios e sem nenhum outro humano à vista, quase desejei fazer uma curva e encontrar um zumbi… um gigante demoníaco babando para poder fugir dele ouvindo o ronco do VTEC e os estalos do cascalho batendo contra o piso de compósito do Nomad.

Na terra o Nomad é ainda mais insano. A suspensão do Tactical engole as valetas de drenagem e diverte muito mais que uma Ford F-150 Raptor, que pesa três vezes mais. Os pneus borrachudos agarram qualquer coisa. E quando essa tração excepcional se tornar entediante, basta puxar o freio-de-mão hidráulico (também conhecido como alavanca de drift) para tornar este kart de motor central em uma máquina de levantar poeira.

Esta é a beleza deste Ariel: você pode explorar tudo. Uma estradinha sinuosa? Uma trilha na montanha? Um complexo militar-industrial abandonado? Ele encara tudo. Os proprietários de motos trail já conhecem essa sensação há muito tempo, mas ela é novidade no mundo dos carros – nenhum carro pode entregar a capacidade off-road e a agilidade no asfalto que o Nomad entrega.

É claro que esse nível de capacidade cobra seu preço. Esse carro trata seu corpo com o mesmo desdém de uma motocross. Os ocupantes saem do carro vestindo pedaços do terreno que acabaram de atravessar, sentindo dores latentes nas costas. Se você não está em forma para trilhas, um dia curtindo o Nomad vai te deixar caminhando como um zumbi… como alguém travado por seus músculos distendidos.

Como os proprietários do Atom descobriram, os processos para licenciar um Ariel são um pouco diferentes de um carro comum, mas é possível. Também é possível que o Nomad seja seu carro de uso diário. O motor Honda é tão confiável quanto uma marreta; e todos os outros componentes do carro são visíveis a dez passos de distância. Livre-se de bagagem ou passageiros chatos, e inclua no orçamento uma roupa de chuva para moto, e você poderá usar o Nomad para trabalhar diariamente.

E por falar em orçamento, o Nomad Sport parte de US$ 80.000; o Tactical, com seu guincho, sua barra de LED, freio-de-mão hidráulico, estepe e upgrades de freio e suspensão, parte de US$ 92.250. É um pouco mais que no Reino Unido, onde o Nomad custa cerca de US$ 40.000. Mas todos os Nomad feitos nos EUA vêm com faróis, lanternas, para-choques, para-lamas e para-brisas. Mesmo assim é uma boa quantia por um carro que desafia a definição da palavra carro como um adolescente discutindo sobre o horário de ir para a cama. E apesar de termos sonhado em usar esse carro o tempo todo, ele é muito mais um brinquedo de final de semana, que ficará estacionado ao lado de um carro mais sensato esperando pacientemente um sábado ou domingo de sol.

 Não importa o que você espera deste carro, ele irá te surpreender em todos os sentidos. Seu esportivo pesado e fechado até perde um pouco da graça perto dele. Claro, você estará confortável em um carro convencional. Mas este conforto não irá ajudar quando os zumbis começarem a te seguir pela estrada e depois fora dela. Droga!

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