Encontro de GTs: colocamos frente a frente o clássico e o futuro Gol GT

A reunião entre o xodó da década de 1980 com o protótipo sensação do último Salão de SP

Por Luiz Guerrero // Fotos: Bruno Guerreiro

Faltava uma assinatura para que o Gol Trendline se transformasse em Gol GT Concept. E não nos referimos a uma assinatura em um documento, mas a uma assinatura de design – aquele detalhe estético que identifica um automóvel como sendo de uma marca.

O Gol GT Concept, você deve saber, foi o show-car mais comentado do recente Salão do Automóvel por visitantes de todas as idades. Chamou a atenção até de jornalistas estrangeiros que para cá vieram: a revista alemã Auto Bild estampou a foto do GT na capa com o título “Este é o Gol que queremos!”, dizendo que o conceito tinha os genes dos grandes esportivos da marca.

A inesperada repercussão também contagiou o comando da VW, a ponto de ser cogitada a fabricação do GT. O que se planeja é a construção em 2017 de uma série especial com tiragem limitada da versão. Uma forma de marcar o fim da atual geração do Gol, já que o carro mudará radicalmente no próximo ano. Fontes informam que a proposta foi bem-aceita. Entendemos que isso significa um sim: o GT voltará.

JOVENS E NÃO JOVENS


“Apelar para o lado emocional do público foi intencional”, conta o criador do conceito, o paulistano José Carlos Pavone, 39 anos, atual chefe de design da Volkswagen do Brasil. “A gente esperava que quem queria ter um Gol GT naqueles anos 1980, se emocionaria ao encontrar a recriação da versão. E também achava que quem nunca tinha ouvido falar do GT original, ficaria surpreso ao ver a transformação de um Gol normal em um esportivo de aparência agressiva.”

A comoção em torno do carro nos levou a convencer o pessoal da VW a nos deixar dirigir o conceito. Pavone concordou em emprestar sua cria, desde que não falássemos sobre o motor, já que o Concept é uma proposta estética. Por isso, você não vai encontrar nesta reportagem qualquer menção ao desempenho na avaliação do modelo. Mas lerá elogios ao motor 1.8 do Gol GT original que convocamos para esta reportagem – um modelo 1986 que nos foi gentilmente cedido pelo representante de vendas Paulo Fragoso, dono da preciosidade. O GT de Fragoso foi convocado 1- para que você compare os dois modelos; e 2- para que a gente relembrasse como é divertido dirigir um AP 1800 com comando bravo.

MEIO BRASILEIRO, MEIO ALEMÃO

O GT Concept foi o primeiro trabalho de Pavone desde que assumiu, em agosto, o comando do departamento de design da VW em substituição a Luiz Alberto Veiga. Autor das linhas do Jetta lançado no Brasil em 2011 e da versão americana do Passat, Pavone retornou ao Brasil depois de 12 anos trabalhando, primeiro na matriz da empresa, na Alemanha, e depois no centro de design da marca nos EUA. Com o sotaque carregado de quem passou tanto tempo sem falar português, ele conta que teve pouco tempo para desenvolver o show-car: quatro meses. O trabalho foi concluído às vésperas da exibição no Salão, mas horas antes de o carro ser transportado do estúdio de design da VW em São Bernardo do Campo até o centro de exposições, a 15 km dali, a equipe de Pavone ainda tentava junto com o pessoal de elétrica da fábrica fazer o sistema de iluminação funcionar. E houve quem, na última hora, sentiu falta dos alto-falantes na tampa traseira (as peças foram desenhadas, impressas em 3D e aplicadas).

O prestígio de Pavone junto a alguns cargos-chave em Wolfsburg, na Alemanha foi decisivo para a construção do Concept. Bancos (do Scirocco R), rodas (do Golf GTE), manopla de câmbio (do Golf R) e faróis (do Passat) foram enviados em tempo recorde da Alemanha para compor a escultura.


VULCÃO METÁLICO

Para fazer a releitura das principais características do GT original, o time de Pavone se baseou em fotos e nos desenhos de época de que dispunham – todos feitos à mão pela equipe de Márcio Piancastelli, o designer que criou os primeiros esboços do Gol (e que desenhou o SP 1 e 2 e a Brasília). Mas com o carro de Paulo Fragoso estacionado ao lado do conceito, é mais fácil perceber o que o designer entende por releitura. “Não foi nossa intenção criar um Gol GT retrô, mas um carro voltado para a futuro e que equilibrasse modernidade e história.”

As referências ao GT antigo são sutis: os pneus Yokohama S.drive (225/35 R18) escolhidos para equipar o conceito, por exemplo, têm sulcos parecidos com os do Pirelli P600 (185/60 R14) do carro de 1986. Os bancos do Scirocco R ganharam forração com elementos horizontais, tal como os antigos Recaro. E o logotipo GT estampado nas laterais e no vidro traseiro mantiveram o formato, mas ganharam tipologia moderna. Uma das versões do GT saía de fábrica em Cinza Nobre; o futuro foi pintado de Cinza Vulcânico com detalhes em Vermelho Lava, cores exclusivas inspiradas nas placas expelidas por vulcões.

SÓ NO PLANO

Além da evidente evolução da carroceria, outra diferença entre os dois modelos é a altura do solo.  “Nos anos 1980, os esportivos eram mais altos e, para disfarçar usava-se recursos como a aplicação de soleiras nas laterais”, explica Pavone. O GT original tinha 145 mm de altura livre. Hoje é possível construir esportivos mais baixos, mas o que se vê no Concept seria inviável em qualquer carro de produção, embora a carroceria rebaixada cause belo efeito em uma escultura estática. O problema é que o GT Concept anda, mas é tão baixo que quase torna a avaliação inviável: o carro raspa em qualquer saliência do piso. Por isso, e para preservar o conceito, nos contentamos em dirigir nas alamedas planas da fábrica VW, em São Bernardo.

A suspensão original do Trendline, embora rebaixada ao extremo, foi mantida. O GT de 1986 recebia amortecedores de dupla ação, molas recalibradas e geometria do eixo dianteiro modificada. Tem rodar firme, confortável e, 30 anos depois, ainda mostra que gosta de curvas. Seus bancos Recaro ainda poderiam equipar qualquer carro moderno, mas os bancos do conceito são excepcionais.


Ambos são equipados com câmbio manual de cinco marchas (até 1985, o GT tinha quatro), com trocas igualmente precisas. Mas o que se destaca no GT antigo é o AP 1800 de declarados 99 cv (a 5.400 rpm), torque de 14,9 mkgf (3.600 rpm) e carburador Brosol-Pierburg de corpo duplo. Com comando de válvulas do Golf GTI alemão, têm fôlego infindável e ainda surpreende pela elasticidade e pela força. Paulo Fragoso diz que seu GT acompanha qualquer carro moderno na estrada. E concorda que, caso as restritivas leis permitissem, seria o motor ideal para equipar o futuro GT. Pavone, que não fala sobre motor, também parece concordar. Para ele, o mais importante no motor que virá a equipar a série especial não é a potência, mas o torque em baixa e a elasticidade.

Quanto a assinatura – que reproduziria em linguagem moderna os quatro faróis auxiliares do clássico –, ela foi resolvida com uma visita a uma loja de materiais elétricos: são os filetes de LED que se destacam na dianteira do Concept.

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