Meninos de Rua: Fiat Mobi Drive encara Volkswagen Up

O Fiat ganhou motor três-cilindros e tenta se reabilitar nas vendas. Mas será que ele é melhor que o seu principal rival?

Por João Anacleto // Fotos: Bruno Guerreiro

HB20, March, Gol, Fox... Todos trazem o três-cilindros sob o capô e desde fevereiro de 2014 nós colocamos o Up para enfrentar cada um desses carros. Por vezes o compacto da Volkswagen não tinha tamanho, equipamento, nem preço para concorrer com alguns desses rivais, mas o carro é tão na mão que, pelo mesmo número de vezes, ele conseguiu boa classificação nos comparativos. Agora chegou a hora de o pequeno nacional de origem alemã encarar o rival que nasceu com o propósito de enfrentá-lo. Não, a Fiat não revela, mas até um míope enxerga que produzir um carro menor que o Uno, na base do Uno, não teria razão de ser se o Up não existisse.

O problema é que o Mobi chegou todo errado. Não teve paciência para esperar a FCA terminar o Fire Fly três-cilindros e veio ao mundo com o velho 1.0, de quatro cilindros, da década passada. A estratégia não foi perdoada e o compacto emperrou em vendas. Agora, antes de completar um ano, a versão Drive dá a ele a alma jovial, futurista e conectada que a propaganda anunciou antes da vida real. A partir de agora, o Mobi, enfim, passou a ser tudo aquilo que prometia, mas não entregava.

Levamos para a pista – e para as ruas – o Mobi Drive, com preço fixado em R$ 39.870, na versão básica (R$ 44.370 completa), e o Volkswagen Up Track, versão especial do compacto, que sai por R$ 46.400. Ambos esbanjando racionalidade, praticidade e, especialmente, economia de combustível. Com um quê de lúdicos, ele têm de mostrar que não estão mais para brincadeiras. Vire as páginas e vamos ao que interessa: a queda de braço mais esperada desses dois meninos nascidos para as ruas.

2º Lugar - Fiat Mobi Drive


Ele perdeu, mas desta vez caiu em pé. No último confronto contra o Up, ainda equipado do (mau) e velho 1.0 EVO de 4 cilindros sob o capô, a diferença entre os dois foi de 25 pontos (409 a 384) na nossa contagem de notas. Agora foram apenas qutro pontos a favor do VW (confira a tabela na página 84). Uma evolução que raramente se vê no mesmo carro. A versão Drive fez o Mobi melhorar em praticamente todos os aspectos que realmente importam quando falamos de carro. Carro urbano, entenda-se.

Começando pelo desempenho, ele é substanciais 2 s mais ágil na aceleração de 0 a 100 km/h, e cumpre a prova em 14,4 s. Antes levava longos 16,4 s. Além de se superar, superou o rival da VW que arrancou em 14,6 s. Nas retomadas, mais boas-novas. O 1.0 três-cilindros é tão competente que a Fiat apenas alongou um pouco a relação da 5ª marcha do câmbio manual, sem mexer em mais nada. De 100 km/h a 120 km/h, em 5ª marcha, ele levou 9,1 s, quase a metade dos 17,4 s do Mobi com motor de quatro cilindros, e foi exatos 4,7 s mais ligeiro que o concorrente. De 40 a 80 km/h, em 3ª marcha, que simula uma situação mais recorrente na vida real, o Mobi leva 8,6 s, enquanto o Up precisa de 2s a mais.


Mas a vida, meu caro, não é feita só para quem tem pressa. Ainda mais quando você escolhe um compacto tão racional, sua opção estará amparada, sobretudo, em quanto o carro vai aliviar a sua carteira em cada ida ao posto de gasolina. E nisso o Mobi também deu as cartas. Ajudado por uma taxa de compressão de 13,2:1, o Fiat bebe como um curió. Com etanol, roda 10,7 km/l na cidade e expressivos 14,4 km/l na estrada.

CONVIVÊNCIA

Considerando uma média de consumo de 55% em situações de uso urbano e 45% de uso rodoviário, em velocidade constante, ele chega aos mesmos 12,3 km/l do March, e só fica atrás do Ford Ka, que faz 12,4 km/l e ainda é o carro com motor 3 cilindros aspirado mais econômico usando etanol de acordo com os nossos testes.

Mas se ele anda mais que o Up e bebe menos, onde diabos o Mobi perdeu a disputa? Bem... A principal diferença entre eles está no convívio. Por mais que seja uma novidade, o Mobi não esconde a idade de sua estrutura, herdada do Uno, que herdou do Palio, e que mudou pouco desde o lançamento em 1996. Já o Up é o mais longe que um compacto pode chegar quando você pensa em modernidade.


Desde a posição de dirigir alta demais, passando pela posição dos pedais, um tanto deslocados para a direita, e a sensibilidade da direção que verificamos no Mobi, tudo é melhor no Volkswagen. Um carro no qual você não precisa se ajeitar para dirigir. Os bancos do Mobi também são mais estreitos e têm abas laterais que fazem você se sentir apertado, mesmo estando magro (o que não é exatamente o meu caso, mas isso não vem ao caso). Outro fator que nos irrita bastante é o câmbio do Fiat. Não a máquina em si, mas a interatividade com ela. A alavanca parece estar frouxa, o que não reflete maciez nos engates. É impossível prever qualquer emoção a bordo.

Outro ponto crucial, que selou a derrota do Mobi ficou por conta dos preços de revisões e do seguro, sensivelmente mais caras do que no Volkswagen. Coisas que pesam demais quando você pensa na vida a sós com o seu carro. 


1º Lugar - Volkswagen Up


É estranho ver os números de vendas do Volkswagen Up. O 13º lugar no ranking não corresponde às qualidades e às habilidades do carro. O desenho, minimalista, não agradada às massas, que preferem vincos, dianteiras desproporcionais e traseiras recortadas como se feridas por um kataná. E o design, meu amigo, corresponde por aproximadamente 70% da decisão de compra. Apenas isso pode explicar ele estar atrás dos irmãos Gol e Fox. Talvez a posição também se explique pela falta de carros para teste-drive nas concessionárias. O Up é do tipo que, quem anda, leva para casa.

Ao compará-lo com o Mobi percebe-se mais do seu poder de convencimento. Os alemães são tão meticulosos que parecem ter analisado 1 bilhão de humanos diferentes para projetar em quais posições ficariam os pedais para que atendessem à maioria, e no mesmo estudo, a posição do volante, do painel, dos comandos do som, da ancoragem dos bancos... Sair dele e entrar no Mobi, com seus bancos um tanto apertados, pedais deslocados e direção que parece manter o carro sobre um rinque de patinação, é voltar 10 anos no tempo. E isso não é força de expressão.


Quando chegou, o Up virou a referência de carro compacto, tanto em desempenho quanto em consumo. Mas nossos números de testes mostram que não é mais assim. Perder em consumo já foi uma derrota doída, afinal, eficiência é a alma do negócio. O problema foi ficar para trás em desempenho, já que nenhum compacto nos agrada mais do que este. E nas retomadas a queda foi feia. O câmbio mais longo do Up aposta na rapidez em que o giro do motor sobe, mas contra um três-cilindros semelhante e relações de transmissão mais curtas, o VW comeu poeira e os dois quesitos fizeram a diferença dele para o Mobi, que era de léguas, cair para metros.

CONGÊNITOS

A versão Track avaliada é baseada na Move On, e vem com ar condicionado, direção hidráulica e tem alguns detalhes diferentes no exterior. Repare que os para-choques agora têm moldura preta maior, os retrovisores estão pintados de preto, assim como as maçanetas e há máscaras negras nos faróis. Ah, também há caixas de rodas protegidas com plástico que, segundo a marca, realçam a robustez. O problema todo é que se esqueceram de oferecer um sistema multimídia, por mais simples que fosse. Aquele disponível nas versões mais caras do carro (High, Red, White e Black) seria o suficiente.


No Mobi em vez do rádio, que é comandado por comandos no volante e você só enxerga as estações no cluster digital, a porção central do painel é habitada por um suporte de celular e será o seu smartphone a central multimídia. Basta baixar os aplicativos próprios do Mobi. É pouco, mas é algo. O único opcional disponível do Up são as rodas de liga leve (R$ 950), como você vê nas fotos.

E se falta opção de conectividade, pelo menos o Up é mais habitável. O espaço traseiro do Mobi é ridiculamente pequeno, do nível em que uma cadeirinha de bebê colocada ali, por exemplo, fica roçando no encosto traseiro. O porta-malas, se não é um latifúndio, pelo menos não assusta. No Mobi são 215 litros, no Up são 285. São defeitos congênitos que o Mobi herdou de uma arquitetura já defasada.


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