Divertida Mente: 208 GT encara Punto T-Jet, DS3, Up TSI e Sandero RS

Na categoria Melhor Hot Hatch, qual é o vencedor?

Por Rodrigo Machado // Fotos: Renato Durães

Desde 2001 a Academia premia o melhor filme de animação do ano, uma categoria que, teoricamente, é para longas leves, divertidos e com pouca preocupação com a realidade. Teoricamente. O vencedor deste ano, por exemplo, é o Divertida Mente, que mostra como funciona a mente de uma criança de 11 anos durante uma troca de cidades. Se você ler rapidamente a sinopse, vai achar que é um filme ideal para deixar seu filho se entreter enquanto você procura algo melhor para fazer. Porém, a criação da Pixar é bem mais que isso: ela mostra como as diferentes emoções reagem aos estímulos que o mundo externo dá a uma pessoa, independente da sua idade. É um exercício interessante para qualquer um entender melhor o que se passa na sua própria cabeça.

Se você olhar rapidamente estes cinco carros, vai achar que são ideais para dar ao seu filho quando ele entrar na faculdade. Afinal, são pequenos, não parecem ser lá muito rápidos – ótimo para quem tem mais hormônios do que neurônios na cabeça – e até que são bonitinhos. Porém, eles vão muito além disso: tal qual Divertida Mente, um filme infantil que não é só para crianças, estes cinco não são só para levá-lo do ponto A ao B. E sim fazer você se divertir neste trajeto. Afinal, na categoria hot hatch, quem merece ganhar o Oscar?

5º LUGAR – FIAT PUNTO T-JET


Comparativos de carros têm se tornado cada vez mais uma briga por tempo. E não tempo de aceleração ou retomada. É que, com a absurda velocidade no desenvolvimento de novas tecnologias, o lançamento mais recente geralmente é o que traz as melhoras sacadas e os itens mais modernos. Imagine a situação do Punto T-Jet, que está há sete anos no mercado sem grandes novidades. Sim, durante este tempo ele recebeu reestilizações e alguns mimos que melhoram a vida a bordo. Porém, a essência do que ele é continua a mesma há quase uma década.

Pegue o motor, por exemplo. O bloco é basicamente o mesmo 1.4 que é usado há bastante tempo na família Palio e Uno, com diâmetro, curso e cilindrada idênticos. Entram em cena, é claro, o turbo e um eixo a mais no comando de válvulas. A injeção eletrônica tem sistema diferente, mas continua multiponto sequencial. Os números no papel nem são tão discrepantes em relação a motores modernos: 152 cv e 21,1 mkgf são até bem aceitáveis.


ATRASADO

O problema é na prática. Estamos tão acostumados a motores turbo modernos, com atraso quase inexistente, que esquecemos que essa entrada abrupta de força é uma característica básica deles. O T-Jet nos faz lembrar do turbo lag o tempo todo. É como recordar dos tempos de criança: você até gostaria de revivê-los por um momento. Mas sabe que a vida é bem melhor agora.

Ao menos as leis da física não mudaram de 2009 para cá. Portanto, o Punto continua muito bem plantado no chão, com boa aderência mecânica e reações previsíveis aos movimentos do volante. O que é importante, pois ele é o único daqui sem qualquer tipo de controle de tração ou estabilidade.


4º LUGAR – RENAULT SANDERO RS


Antes de tudo, vamos prestar reverência à Renault. É necessária coragem para investir em esportivos em um mercado que dá pouca importância a eles e em um tempo em que gostar de dirigir é quase um crime. Vamos também elogiar o bom trabalho feito pelo time da Renault Sport no Sandero. Eles conseguiram transformar um dos hatches mais meia boca por aí em um pequeno capeta dos track days. E é exatamente por isso que ele ficou em quarto nesta disputa: o melhor carro de pista não é necessariamente o melhor carro.

É verdade que os bancos são genuinamente bons – quase um milagre se comparados aos do Sandero comum – e que a direção é a melhor dos cinco – qualidades importantes não só para a pista. Contudo, a principal solução para dar ânimo ao RS estragou a convivência com ele: as relações do câmbio manual de seis marchas.


DE DOIS EM DOIS

Para fazer o já antigo motor F4R – que foi introduzido na virada do milênio – ter fôlego de esportivo, a Renault usou uma transmissão extremamente curta. É legal no começo, quando os giros sobem tão rápido que você se sente um piloto de rali, trocando de marcha a cada segundo. Mas basta pegar um trânsito mais pesado para ficar de saco cheio de tanto mexer braços e pernas. Neste momento, você busca truques para se cansar menos. Nós, por exemplo, descobrimos que dá para conviver com o Sandero RS só com as marchas pares: sair de segunda, passar para a quarta e depois a sexta.

Sim, o arranjo do câmbio de fato dá um desempenho muito interessante para o Renault, junto com as suspensões refeitas e freios maiores em relação ao Sandero comum. Mas o preço a se pagar foi a boa convivência que qualquer automóvel moderno fornece.


3º LUGAR – CITROËN DS3


Pense em Zico ou Cruyff: colocação não é tudo nesta vida. A terceira posição do DS3 é mais uma crítica ao seu contexto no mercado do que uma condenação ao carro que ele é. Até porque não somos loucos a ponto de dizer que o Citroën é ruim. Na real, o DS3 é referência em tudo que envolve o produto neste comparativo.

O 1.6 THP já tem alguns anos de estrada. E continua uma beleza. Há torque de sobra em qualquer situação, o que passa a impressão de que o motor tem muito mais que os 165 cv e os 24,5 mkgf. As retomadas só são anestesiadas pelo câmbio de relações longas. Aqui, portanto, vai um contraponto interessante: enquanto a Renault precisou de uma transmissão curta para explorar um motor falho, a Citroën pode alongar a sua graças ao bom rendimento que o 1.6 consegue fornecer em giros médios. O que beneficia diretamente o conforto e o consumo.


MECÂNICO

O que o DS3 tem de parecido com o Sandero é a sensação de ser um carro visceral. A embreagem e suspensão são firmes e você consegue sentir pela mão o engate das engrenagens ao trocar de marcha. Se algo estiver errado, você vai perceber.

O que joga contra o DS3 é – e sempre foi – o bolso. Se o seu for raso, nem adianta olhar para ele. Além de ser o mais caro e de não vir lá tão equipado assim, ele tem a manutenção mais alta dos cinco e é importado, o que sempre encarece as peças de reposição. Falta espaço atrás, é claro. Não dá para esperar diferente de um carro de duas portas, né? Se grana não for um problema vá fundo no DS3. É uma aposta tão certa quanto assistir um vencedor de Oscar no cinema.


2º LUGAR – VOLKSWAGEN UP TSI


O Up TSI trouxe um problema para a C/D: em toda reunião de pauta alguém sugere um comparativo com ele, independentemente dos rivais. É natural. O pessoal da internet gosta de nos chamar de vendidos, mas pense conosco: ele anda como um pequeno esportivo, bebe como um híbrido, “custa pouco”, é barato de manter e confiável. Se contentem por nós não o compararmos com uma Ferrari, galera do Facebook.

Como essa é uma disputa de hot hatches, ele está aqui por ser uma delicia de guiar. O motorzinho 1.0 turbo de três cilindros é uma pequena joia. É frenético ao subir giros e suave o suficiente para fazer você sempre explorar o máximo possível. Não há ninguém aqui na Redação que não se anime quando o TSI chega à revista. Há poucos carros tão alegres como ele por aí.


LIMITES

Claro que o desempenho não se compara com o do 208 GT que tem quase o dobro de potência. Ele foi dois segundos mais lento no 0 a 100 km/h, mas andou junto do T-Jet nas retomadas. Culpa aí do bom torque em giros médios e também da transmissão corretamente escalonada e com os certeiros engates de sempre. O espaço interno é sofrível no banco de trás e não há o acabamento caprichado do Citroën ou do Peugeot.

Contudo, a questão aqui é a sensação que o Up passa. O sentimento de que ele é simplesmente um automóvel muito bem feito, sem exageros ou tentativas de reinventar a roda. O Up conhece seus limites e sabe até onde pode ir. Não acredita? Faça um test drive. Duvido você continuar nos chamando de vendidos depois disso.


1º LUGAR – PEUGEOT 208 GT


De tempos em tempos surgem alguns carros com potencial para ser mais do que são. Veículos com boa base, sacadas inteligentes e que sofrem com componentes que simplesmente não funcionam mais. Sempre olhamos o 208 com carinho: além do desenho bonito, ele tem o esquema do volante pequeno que permite ver o painel de instrumentos por cima dele e não por dentro. Não agrada todo mundo, é verdade, mas era uma tentativa de fazer algo diferente. O acerto dinâmico também era legal. Só que faltava coração. Os 1.5 e 1.6 e os câmbios manual e automático jogavam contra a Peugeot e nos deixavam apenas imaginar o quão divertido deve ser o 208 GTI europeu e seus 200 cv. A nossa imaginação continua viajando já que o GTI não vem. Porém, podemos nos contentar com uma letra e 27 cv a menos.

O 208 GT é um produto nacional, feito e desenvolvido para cá. E inaugura também o pequeno facelift que estará na linha do hatch a partir do próximo mês. As mudanças estéticas são discretas: faróis, lanternas e para-choques estão redesenhados e há uma nova rearrumação de versões. Além desta configuração esportiva, a grande novidade está na substituição do motor 1.5 pelo 1.2 de três cilindros que a Peugeot promete ser o mais econômico do País. Tiraremos a prova em breve.

TRANQUILO

Por enquanto nos resta o GT. O que já nos deixa satisfeitos. O conjunto mecânico é o mesmo do Citroën DS3, com o 1.6 THP e câmbio manual de seis marchas. A diferença é a dieta: feito no Brasil, o motor do Peugeot é flex e chega a 173 cv com etanol. Em relação a um 208 comum, o GT tem a suspensão recalibrada, com molas e amortecedores mais firmes, e freios a disco nas quatro rodas – que são de 17’’, aliás. São alterações até tímidas frente às do RS em comparação a um Sandero tradicional. Mas tem explicação. A Peugeot não queria que o 208 ficasse duro demais ou muito baixo e acabasse perdendo a praticidade de um hatch tradicional.

E é essa escolha certeira que fez o 208 GT vencer este comparativo. Tal qual o Up TSI, o Peugeot não extrapola os limites do bom senso para ser um carro veloz. É uma fórmula que os europeus já estão acostumados: um modelo de nível intermediário, com motor potente e sem perder os atributos de um carro para o cotidiano.


Talvez por esse maior descompromisso com a esportividade, o motor 1.6 THP se destaque tanto no Peugeot. No DS3, a experiência toda é mais nervosa: você se senta baixo e tem reações mecânicas e cruas do carro. Você espera que o carro te trate com certa brutalidade. No 208 tudo é muito mais suave. O bacana e pequeno volante é bem leve – mais até do que deveria, por sinal –, assim como a embreagem e o câmbio. Resultado: quando você acelera, não imagina que irá tão rápido.

Sim, se você puxá-lo pelo pescoço ele vai responder com competência, permitindo até umas deslizadas de traseira. Mas não é esse o ponto. O 208 GT gosta de ser guiado a 8/10: mais rápido do que você pode e menos do que você deve. Significativamente ágil e ainda com conforto. Essa combinação vale o Oscar.

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