Lamborghini Aventador SV

Por Aaron Robinson // Fotos: Tom Salt

Mario Fasanetto sai gritando pela floresta das montanhas Eifel, na Alemanha, em um Lamborghini Aventador SV, um carro que parece ter nascido do cruzamento de Clark Kent com o demônio. A carroceria é talhada por cortes e esculpida com aberturas e tatuada com lâminas negras que ordenam o vento ao seu redor ou através de si. Os quatro canos sob o para-lama traseiro de origami cospem uma chama azulada (uma chama!) de uns 15 cm quando o V12 de 6,5 litros é açoitado a 8.500 rpm. Este é o carro que aparece quando você chama um Uber em Mordor. Hoje é um daqueles dias em que trabalhar em uma revista de automóveis é exatamente como todos acham que é o tempo todo. Estamos atrás de Fasanetto, chefe dos pilotos de testes da Lambo, tentando acompanhá-lo nos SV de 750 cv que nos entregaram. Começa a chover.

No breve e inocente interlúdio entre as duas grandes guerras mundiais, alguns lenhadores cortaram uma trincheira profunda no cobertor de folhas de faias e carvalho e pinheiros perfumados no noroeste da Alemanha. Junto veio Nürburgring. Os trabalhadores tiveram o privilégio de batizar algumas das curvas, como a Fuchsröhre, que homenageia uma raposa que se recusou a deixar sua toca durante a construção, e a Galgenkofp, o antigo local da forca onde os condes de Nürburg realizavam os enforcamentos públicos. Mas foi Jackie Stewart quem deu a Nürburgring seu batizado permanente quando chamou o Nordschleife de inferno verde. Ele não estava fazendo graça: o sangue pintava a pista de uma ponta a outra. Hoje a pista, escura e triste sob um céu ameaçador, está quase vazia.

SPOTIFY PARA ANIMAR

Fomos convidados para experimentar um protótipo do Aventador SV com esterçamento nas quatro rodas, que atua sobre a geometria revisada. A Lamborghini já está acampada aqui faz algum tempo, baseada em um aconchegante chalé na vila de Nürburg, próximo ao famoso restaurante Pistenklause, onde os grandes nomes do automobilismo autografaram as paredes e o teto. Como você já deve ter adivinhado, isso não será como o lento passeio no Bugatti Chiron das páginas anteriores.

 Além do esterçamento das rodas traseiras, o Aventador experimental também tinha uma nova tela de 10,1 polegadas com as típicas funcionalidades encontradas nos carros modernos. Tudo é apresentado por uma bela interface multicolorida de alta resolução. Mas será que os donos do Aventador estão mesmo pedindo conexão com o Spotify para animar seu trajeto para o trabalho? Provavelmente não, mas a Lamborghini acha que um carro de meio milhão de dólares precisa ao menos oferecer o mesmo equipamento que custam um décimo disso.

A marca já havia anunciado o esterçamento das rodas traseiras no Centenario, edição especial de 40 unidades. Mas ela parece ávida para espalhar a tecnologia, especialmente no Aventador, um carro que pesa 1.770 kg em sua forma mais leve, e parece tão grande quanto uma lancha de corrida. Na traseira, os braços de controle de convergência das rodas são substituídos por duas unidades motorizadas da ZF, que podem esterçar os pneus 355 em até 6 graus. É realmente um esterçamento das rodas traseiras, mas como na maioria dos conjuntos, talvez seja mais apropriado pensar nisso como um ajuste dinâmico de convergência. A Lambo também instalou uma nova manga de eixo na traseira que muda a geometria, aumentando a cambagem e reduzindo o cáster. As mudanças prometem tornar o eixo traseiro do protótipo um lugar mais ativo.

A Lamborghini não alugou apenas o Nordschleife, mas também o circuito GP, mais novo e famoso pela estrela gigante da Mercedes-Benz sobre as arquibancadas e por seu histórico de corridas da DTM com carros decolando nas zebras. Começamos aqui, levantando as portas tesoura que ainda são insanas e nos encaixando nos implacáveis bancos concha do SV, batendo o capacete no teto baixo. Para ligar o Aventador você levanta a capa vermelha do botão como se ele fosse o disparador de um míssil e depois aperta o botão de partida do V12.

Lamborghini Aventador SV

MERGULHO

Já faz tempo que os V12 dominaram as categorias mais importantes do automobilismo. A F1 deu adeus a eles em 1996. A Peugeot colocou o último V12 no pódio de Le Mans em 2009; agora que a categoria de ponta é formada por híbridos, é pouco provável que voltemos a ver outro. Assim, há muito romantismo no ronco dos doze cilindros do Aventador. Deixe-se levar pela imaginação e imagine um Matra MS11 ecoando no túnel de Monte Carlo, ou uma Ferrari 330 P4 rasgando a noite de Daytona, ou ainda um Jaguar branco e roxo trovejando na Mulsanne com os Porsche 962 na sua cola. Até pouco tempo atrás a Lamborghini disputava categorias, mas nunca obteve sucesso, por isso é irônico que o Aventador seja um dos raros carros que mantenha essa tradição.

Passamos rasgando pela arquibancada abaixo da estrela da Mercedes. Nas curvas fechadas do circuito GP as diferenças do protótipo são aparentes mesmo para alguém que dirige caminhões de mineração diariamente. Com as rodas traseiras se movendo, o SV contorna curvas com mais vontade e é mais fácil de se ajustar no meio da curva, permitindo que você trace uma linha bastante justa. O enorme carro encolhe ao seu redor. O SV comum não é exatamente espaçoso, mas veste como um terno bem cortado se comparado com o protótipo, que é um traje de mergulho.

Acelera, freia, vira, acelera, freia, vira; o circuito GP é como uma academia, mas a traseira do protótipo o faz querer mergulhar no tangenciamento das curvas. Para qualquer pessoa que conhece a Lamborghini e sabe como o Diablo se comportava, fica claro que o touro percorreu um longo caminho.

Como na maioria dos sistemas de esterçamento nas quatro rodas, as rodas traseiras do Lambo esterçam no sentido oposto das rodas dianteiras em baixa velocidade, criando um entre-eixos curto virtual, como diz o engenheiro de dinâmica Giuseppe Di Rosa, para reduzir o diâmetro de giro e aumentar a agilidade em curvas fechadas. Acima de 100 km/h, as rodas traseiras acompanham as dianteiras, criando um efeito de entre-eixos mais longo para otimizar a estabilidade.

O céu turvo desceu. Depois do almoço demos uma volta no circuito GP com o piloto holandês Jeroen Mul em um Huracán Super Trofeo da categoria monomarca da Lamborghini, quase devolvendo o gnocchi nas frenagens que travavam os cintos. Depois disso a Lamborghini nos considerou prontos para o prato principal, o Grüne Hölle. Entramos em Nordschleife.

Lamborghini Aventador SV

A primeira volta na floresta leva tempo, uma vez que estamos aquecendo os motores e os nervos. Em alguns lugares a pista está seca como um deserto. Em outros, está úmida. Assim é Nürburgring, com sua variação de asfalto e clima. Paramos nos pits e acenamos para um inquieto Fasanetto, que estava nos mostrando o traçado e queria saber se queríamos trocar de carro. Não, ainda não.

O protótipo SV faz tudo o que precisa ser feito em Nürburgring, saltando no Flugplatz, trepidando no Caracciolea-Karussell e atacando as zebras entre a Wippermann e a Schwalbenschwanz. A 8.000 rpm sua audição fica abafada e seus olhos começam a ver estrelas. E ele cospe fogo! Na reta as trocas explodem uma depois da outra. O SV simplesmente voa, o velocímetro passa dos 300 km/h, a mais suave das dobras da Tiergarten chega tão rápido que parece… espere aí!

O novo desempenho que o protótipo exibe no apertado circuito GP se transforma em uma nervosa hiperatividade no veloz Nordschleife. Trocamos de carro, depois trocamos de novo e confirmamos as impressões. Sim, o SV normal é mais seguro, mais plantado, exige menos trabalho em alta velocidade. Sentindo mais confiança forçamos mais o SV comum. Ao retornar para os pits passamos nossas observações para os engenheiros e eles concordaram. Aparentemente isso não é novidade e ainda há muito trabalho a fazer. Adotar o esterçamento na traseira e uma nova geometria significa fazer concessões e, como tudo na engenharia automotiva, a arte está no equilíbrio dos elementos.

A Lamborghini é reservada ao falar sobre quando veremos o esterçamento das rodas traseiras em outros carros além do Centenario, limitando-se a dizer que está trabalhando nisso há dois anos. Há muitas voltas em Nürburgring pela frente. Se eles quiserem voluntários, estamos à disposição, mesmo que isso leve mais dez anos.


Quer ver mais reportagens sensacionais como essa? Então garanta já sua Car and Driver sem sair de casa | http://bit.ly/2kNBAJD