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Por Carlos Cereijo // Fotos: Bruno Guerreiro

Um Range Rover Evoque conversível pode parecer ideia absurda. E é, com certeza. Mesmo assim espero que, no final dessa avaliação, eu mostre a você como esse carro é deliciosamente útil na sua inutilidade.

Para se chegar a esta conclusão, primeiro é preciso lembrar como o Evoque nasceu em 2011. Antes dele, a Land Rover tinha três linhas no portfólio. O Defender para quem queria dar a volta ao mundo, explorar a savana ou fazer trilhas pesadas. Depois vinham Freelander e Discovery, carros mais racionais, utilitários esportivos para clientes que não podiam pagar pelos Range Rover. Estes, por sinal, são a terceira linha da marca. Uma linha bem lá em cima. Cara, de luxo, grande, enorme.

O Evoque pipoca no meio dessa família com a insígnia Range Rover, mas sem custar os R$ 500 mil que seus irmãos. Ele é, sem dúvida, muito bonito e com design inovador. O Freelander ao lado do Evoque é tão excitante quanto um chá de camomila no copo de requeijão. O novo SUV até hoje vende muito bem, pois fez a Land Rover chegar a um público que não pensa em praticidade – o Evoque é apertado, tem pouco espaço para bagagem e peca em conforto. Eles só queriam o SUV mais sexy que existe, sem pagar uma fortuna.

Claro, os engenheiros da marca vão querer convencer a todos que o pequeno jipe pode subir a cordilheira dos Andes ou atravessar a Sibéria. E o Evoque é bom de offroad, eu sou testemunha. Mas isso é o mesmo que anunciar uma faca que corta um sapato ao meio, sendo que você só vai abrir a embalagem de lasanha congelada com ela. Pra que fazer isso, Ginsu?

VOCÊ É LOUCO! AINDA BEM!

Evoque Conversível

Agora imagine a dor de cabeça que é para a Land Rover, após quase oito anos do lançamento, criar um Evoque de cair o queixo. Que tipo de pessoas fizeram parte dessa reunião? Willy Wonka? Lady Gaga? Harry Potter? Como fazer o SUV que revolucionou o mercado não passar batido no trânsito em 2017?

Algum louco (ainda bem que eles existem) propôs uma versão conversível nessa reunião. No Salão de Genebra de 2012 o conceito apareceu. “Quando mostramos o protótipo, as reações foram extremamente positivas. O próximo passo pela lógica era trazer o modelo à vida”, diz o diretor de design da Land Rover, Gerry McGovern. Portanto, o que era um devaneio ganhou a chancela de lógica. Quem diria!

LARANJA CHEGUEI

Mas como é o Evoque Conversível na rua? Ele é tudo o que a primeira unidade do Evoque provocou. Ainda mais na cor Laranja Phoenix. Circulando pela capital paulista, crianças, homens e senhoras apontavam para o Range Rover. Mais engraçados eram os motoristas em outros Evoque – sim, eu reparei especialmente nisso. Elas ficavam decifrando o Conversível, como se estivessem bravos que o vendedor não lhes mostrara essa versão.

O teto de lona, que só pode ser encomendado na cor preta, ajuda a testemunhar as opiniões dos populares. Um grupo de adolescentes soltou palavrões, ouvi claramente atráves da cobertura em tecido. Um casal  perguntou que carro era aquele. O Evoque conversível alimenta o ego sedento por atenção. O teto dobrável em Z, fornecido pela alemã Webasto, leva 18 segundos para se abrir e 21 segundos para fechar. E é possível operá-lo em velocidades de até 48 km/h.

Evoque Conversível

Ao volante a versão consegue ser ainda mais dura que o Evoque original. A engenharia da Land Rover precisou reforçar a carroceria para o SUV manter a rigidez até no off-road. Como se algum dono fosse fazer isso... Os reforços, aliados à já firme suspensão, deixaram o carro quase insuportável em pisos irregulares. Remendos de asfalto pequenos parecem crateras a bordo do Evoque. É o preço que se paga.

O espaço interno consegue ser menor. O porta-malas não muda de capacidade, estando o teto recolhido ou não. São 250 litros, menor que o bagageiro de um Nissan March. Os passageiros no banco de trás não podem sofrer de claustrofobia, caso contrário você será obrigado a andar de teto aberto. Sem esquecer o penoso entra e sai para quem não pratica ioga no banco traseiro.

O motor 2.0 turbo empurra muito bem, mas já deu para perceber que o dono do Evoque Conversível quer ser visto por inteiro – desempenho não é prioridade. A direção com assistência e raio variável, e a profusão de câmeras, facilitam as manobras.

O Range Rover Evoque Conversível é tão inútil quanto carro, quanto é útil como expressaõ de personalidade. A Land Rover faz questão de mostrar que consegue usar muita lógica para entregar algo absurdamente sem sentido. Gostamos disso. Nenhuma pesquisa de prospecção ou enquete mostra que o caminho para um carro fazer mais sucesso é ficar mais caro, mais desconfortável e menos prático. É preciso uma sala com alguns malucos e um maluco maior para assinar o cheque.

Evoque Conversível

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