fechar X

Por João Anacleto // Fotos: Bruno Guerreiro

Força, raça, robustez. Sempre que uma picape média se renova essas três palavras são seguidas como um mantra, como partes de uma reza. Nesse Pai Nosso picapeiro a Nissan mantém o ritual. O lançamento da nova Frontier também foi recheado de convicções que nos levam a crer que ela está pronta para rebocar a Lua. “É impossível falar de Frontier sem falar de força. Virou uma questão de sobrevivência neste mercado”, exalta Alan Ponce, gerente de marketing de produto da Nissan. Mas ele, eu e você também sabemos que a cada dia mais gente urbanóide por natureza está disposta a andar com esse trambolhão por vias estreitas e vallets de shopping center.

Primeiro produto acabado de uma plataforma que dará origem a mais três picape (Renault Alaskan, Mitsubishi L200 e Mercedes-Benz Classe X), a Frontier não é exatamente uma revolução, mas chega em um ponto onde nunca esteve. Por R$ 166.700 volta a figurar entre as picapes médias mais caras à venda custando menos e conservando os atributos de sempre. A Frontier de hoje se mostra disposta a diminuir a distância entre quem usa bota com espora e quem prefere o mocassim. E tudo começa, subliminarmente, na sua apresentação física.

O desenho foi amansado. Ela continua musculosa e isso dar para ver de longe, mas como o próprio chefe de design do Estúdio Rio, Robert Bauer, frisou “ela é como o Arnold Schwarzenegger de smoking. Podemos ver os ombros largos, a presença marcante e a imponência sem ver os músculos”. A criação feita nos estúdios da Nissan na Califórnia deram fluidez às formas. Os únicos vincos marcantes estão nas extremidades do capô dianteiro e nos para-lamas que saltam da carroceria. No mais há um que de sobriedade, até. O V-Motion, característico dos carros da Nissan estão discretamente na dianteira e na tampa traseira da caçamba.

FORÇA E ECONOMIA

Nissan Frontier

Já a estrutura não foi amansada. Mesmo que você olhe os 44 kg a menos deste chassi para o antecessor, é bom lembrar que agora ele é feito com aços de alta e ultra-alta resistência e que o duplo C é conectado por longarinas com oito barras transversais. A suspensão traseira manteve o robusto eixo rígido, no entanto ele dá suporte a molas helicoidais e não feixes de mola, uma evolução na qualidade de rodagem. Fora isso, há um sistema de braços múltiplos conectados ao eixo, isso garante uma pulverização da força contrária quando se encara um buraco ou valeta mais profunda. Em outras palavras, o comportamento está mais parecido com um SUV do que com um jipe.

Sob o capô o 2.5 turbodiesel dá lugar a um 2.3 biturbo diesel, menor e mais moderno. A potência foi mantida em 190 cv e o torque subiu 0,1 mkgf, de 45,8 mkgf para 45,9 mkgf. Mas os números não refletem  mudança de comportamento. A Frontier que sempre foi conhecida pela entrega de torque como um terrorista entrega uma bomba, agora se comporta de maneira mais suave e linear. Esses 45,9 mkgf estão à disposição já a 1.500 rpm, o que é 500 rpm antes da antecessora, mas ele mantém você de motor cheio até os 2.500 rpm. O sistema trabalha com as duas turbinas separadamente, uma auxiliando o motor em baixas rotações, e a outra trabalhando em rotações mais altas dentro dessa faixa. E isso faz toda a diferença na tocada, especialmente na cidade.

O câmbio automático 5 marchas também saiu de cena. Apesar do uso de tração 4x4 e 4x4 com reduzida, o que tiraria da frente a necessidade de uma transmissão com engrenagens mais curtas, a Nissan decidiu que uma caixa automática de 7 velocidades seria ideal para aliar a força do conjunto com conforto ao rodar em velocidade constante. Foi isso o que já havia feito a VW com a Amarok, que se não é a preferida do público, cativa quem tem a chance de guiá-la por grandes distâncias.

O resultado dessa parte de engenharia pôde ser medido na pista de testes. Hoje a Frontier é a picape mais rápida do Brasil. Acelera de 0 a 100 km/h em apenas 10 segundos e conseguem retomadas de velocidade em um tempo que você não imaginaria que uma picape deste porte fosse capaz. Desbancou até a Chevrolet S10, com seus poderosos 200 cv e 51 mkgf de torque. A modernidade mostra a cara de novo quando se afere os números de consumo. Com médias de 10,2 km/l na cidade e 15,6 km/l na estrada, também figura no topo da economia em seu segmento. Já as revisões até 60.000 km custam R$ 5.974, preço bem semelhante aos cobrados nas manutenções de Toyota Hilux e Chevrolet S-10, respectivamente, líder e vice-líder de vendas no Brasil.

Nissan Frontier

CONCRETO OU COCHEIRA?

Já a vida a bordo não é lá o que se espera de uma picape deste preço. Em comparação com concorrentes topo de linha a Frontier fica devendo. Como uma evolução da espécie, que quer tirar o pé do barro e gastar solar no asfalto, ela deveria trazer uma posição de guiar melhor. A ancoragem dos bancos está muito alta e a regulagem do volante não é ampla o suficiente para que se fique 100% confortável. Apesar de o motorista não ter o melhor dos mundos, mesmo com os bancos Zero-Gravity, no assento traseiro há saídas de ar condicionado e o espaço foi amplificado, fruto de uma cabine maior. Com 5,25 m de comprimento, ela é 2 cm mais comprida que a antecessora, mesmo tendo perdido 5 cm de entre-eixos. A distância do solo também melhorou em 7 cm, de 22 cm para 29 cm.

O nível dos equipamentos também deveria ser melhor. São apenas dois airbags, enquanto algumas concorrentes, como a S10, trazem sete bolsas de proteção. Seria de bom grado que seu painel de instrumentos não fosse o mesmo do Nissan Sentra e que o seu sistema multimídia não fosse o mesmo que equipa March e Versa. Usar o equipamento que vem no Kicks estaria de bom tamanho. As saídas de ar redondinhas indicam uma economia, à primeira vista, desnecessária e os painéis de portas mereciam uma forração mais refinada. Há uma pequena faixa de couro ali. Pouco para R$ 166.700, que chegam a R$ 168.250 na cor Laranja Imperial das fotos.

A partida é dada por um botão, a chave pode ficar no seu bolso, e abre um caminho desconhecido para os donos de picapes. Além do bom desempenho, se sacode pouco ali dentro. A rigidez estrutural do conjunto ajuda a picape a adernar menos nas curvas e em frenagens bruscas, e não balançar tanto em depressões na pista. Sua suspensão inovadora dissipa bem as pancadas que as rodas de 16” (pequenas demais, diga-se) levam. Isso merece aplausos.

A caçamba tem 1.054 litros de capacidade, espaço suficiente para levar os 1.050 kg de carga possíveis. Mas sabemos que você vai usá-la na cidade, e que precisava mesmo é de uma capota marítima para carregar as compras (ela só será vendida como acessório nas concessionárias). Uma das muitas contradições de uma picape que está louca para ganhar o abrigo de uma garagem com chão de concreto, em vez de sujar os pneus à beira de uma cocheira.

Nissan Frontier

Leia também
Comente!*