Peugeot 408 x VW Jetta TSI

Por Gustavo Henrique Ruffo / Fotos: Mario Villaescusa - publicado na edição nº 51 (mar/2012)

Parecem, à primeira vista, dois pacatos sedãs. Mas são jatos em pele de familiar. Peugeot 408 Griffe THP e Volkswagen Jetta TSI saem de fábrica com turbocompressor e injeção direta de combustível, a dupla da eficiência (veja quadro). A combinação permite menor consumo de gasolina e uma dose extra de vitalidade em médias e em altas rotações capaz de alegrar qualquer viciado em carros. Antes associado a esportividade (e a quebras constantes), o turbo hoje é um grande aliado do consumo. Daí a discrição na decoração dos dois sedãs que agora comparamos. O 408 acaba de chegar; o Jetta já perdeu o ar de novidade. A dúvida: qual destes jatos merece pousar em sua garagem?

Peugeot 408

Um carro de mais de 1.500 kg  corre o risco de ter desempenho mediano. Pense em um avião de passageiros com essa característica e você não iria querer estar a bordo: o bicho precisaria de muita pista para levantar vôo. O Peugeot 408, de 1.527 kg, ao contrário, é um sedã bem disposto. A Griffe THP é a única versão do sedã com o motor 1.6 turbo (que também equipa o RCZ e o 3008) e é uma beleza de máquina: deixou o 408 ficar acima da média. O problema é que a média anda baixa.

PEUGEOT 408 THP

Motor e câmbio na medida certa

Falta conjunto para acompanhar

É o que o 408 básico deveria ser

A posição de dirigir do sedã é alta, mesmo que você coloque o banco no ponto mais baixo da regulagem. Poderia ter um estágio extra para quem prefere posição mais esportiva. O banco tem pouco apoio lateral e não acolhe devidamente o corpo do motorista. É como o garçom que o atende colocando cadeiras em cima das mesas do bar. A suspensão faz o carro flutuar em velocidades mais altas e torna o conjunto anestesiado. Nada de novo em relação ao 408 – e esse é o maior problema da versão turbo com o 1.6 THP sob o capô.

Peugeot 408

E, em tempo, não torça o nariz para o fato de o 408 ser 1.6: o motor é fantástico. Tem 165 cv (14 cv a mais do que o 2.0 aspirado) e também não se destaca em torque (24,5 mkgf, pouco mais que os 22 mkgf do aspirado). Só que parece muito superior. A explicação está na faixa de torque máximo. Enquanto a do 2.0 fica em 4.000 rpm, a do 1.6 THP já está toda lá a 1.400 rpm. Ele é elástico como poucos, algo em que o câmbio automático de seis marchas o ajuda muito, ao contrário da caixa de quatro marchas das versões mais baratas.

Quando é necessário puxar, o 408 reage com rapidez e transmite confiança. Só fica a sensação de que ele está fazendo esforço para isso, especialmente se você já dirigiu outros carros da marca com o mesmo motor. No RCZ (1.363 kg), ele carrega 164 kg a menos. No 3008 (1.480 kg), são 47 kg de alívio – e o crossover é muito mais assentado do que o 408.

Peugeot 408

Peso + posição elevada ao volante + suspensão voltada para conforto. O resultado é um carro que precisa de melhor acerto.

O Peugeot 408 custa R$ 8.030 a menos do que o Jetta TSI. É ligeiramente mais bem equipado, mas poderia ser mais, já que eliminou os bancos elétricos de série para custar menos. O VW só oferece bancos elétricos como opcional. Apesar de ser o primeiro sedã da Peugeot de desenho harmônico em anos (exceção aos 406 e 407, belos até hoje), o 408 parece antigo ao lado do Jetta. Provavelmente por ser derivado do 308, um modelo novo por aqui, mas que já é vendido na Europa desde 2007. O Jetta é um projeto de 2010. Chegou aqui em 2011. Diante disso, a diferença de preço não ajuda o 408. Ela é pequena para encarar o rival mais forte, mais atual e melhor de dirigir, embora mais caro. Uma diferença maior talvez ajudasse o Peugeot a decolar nas vendas. Não que ele seja ruim. É o Jetta TSI que é muito melhor.

VW Jetta TSI

Quem já assistiu “O Encantador de Cães” na TV paga deve invejar o mexicano naturalizado americano Cesar Millan. Esse cara, para quem nunca ouviu falar dele, cuida de cães com problemas de comportamento e faz os bichos virarem exemplo de educação em instantes – e de uma maneira tão simples que faz os donos dos cães se sentirem completos idiotas. No Jetta TSI, que tem motor de cachorro bravo, o que acontece é o inverso. Qualquer um que o dirigir se sentirá Cesar Millan domando uma fera. Não sem razão: veja nossos números de teste e comprove.

VW Jetta TSI

Se fosse um cão, você seria Cesar Millan

No México, ele custa R$ 50 mil!

Mais caro. Mas bem melhor que o 408

Se os 1,9 s de diferença no 0 a 100 km/h para o 408 não dizem isso, a gente confirma: o Jetta TSI acelera muito. Também freia à beça. O câmbio DSG, um manual automatizado de dupla embreagem com seis marchas, é a última palavra em transmissão. Ajuda a economizar e ainda dá ao carro total controle sobre o ótimo motor 2.0 turbo de 200 cv. Em suma, também é um conjunto campeão, como o do 408. Só que o Volks vai além.

VW Jetta TSI

A suspensão é comunicativa e confortável sem ser mole demais. Mas é ainda melhor do que a do Jetta convencional, equipado com motor 2.0 flex que toma surra de qualquer outro equivalente do mercado. Ela é independente na traseira, com multibraços, contra o eixo de torção das versões mais baratas. Como arremate refinado, quase um nó duplo Windsor de gravata, o sedã executivo se mostra bem barbeado e não raspa o queixo em nenhuma valeta, lombada ou saída de garagem. O Peugeot 408 tem cavanhaque.

Por dentro, os bancos seguram o motorista mais amigo de velocidade com zelo de mãe. Não deixam o motorista escorregar do colo nem com reza brava. A posição de dirigir é baixa na medida certa, podendo ficar mais alta para aqueles que não gostam tanto de curvas quanto de olhar o trânsito de cima. Apesar do entre-eixos menor que o do Peugeot (2,65 m, contra 2,71 m), o Jetta oferece espaço interno equivalente atrás, mas os bancos acomodam melhor. O porta-malas é 16 litros menor que o do concorrente franco-argentino, o que equivale a uma sacola de supermercado.

VW Jetta TSI

Fazendo as contas, o Jetta tem um pouco menos de espaço e de equipamentos, mas tem presença mais moderna, conjunto mecânico mais animado e comportamento nota dez, fatores que quase poderiam colocá-lo em um patamar de preço mais alto. Só não o fizeram porque, se custasse mais, ele ameaçaria o Passat. E ele já custa bem mais do que deveria.

No México, país onde é feito o Jetta e terra natal de Millan, a versão TSI é chamada de GLI. Custa 369.409 pesos, o equivalente a R$ 50.350. Depois, Millan foi para os EUA. Lá, o Jetta GLI custa US$ 23.745, ou R$ 40.972. Se há alguém que ele poderia domar não é o Jetta TSI, mas os preços dos carros no Brasil.

Comparativo Peugeot 408 THP x VW Jetta TSI
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