fechar X

Por Raphael Panaro // Fotos: Divulgação

Qual a Ferrari mais icônica de todos os tempos? Durante mais de dez minutos de acaloradas argumentações dois modelos tomaram o cerne da instigante questão levantada na redação. A primeira foi a lendária 250 GTO, fabricada entre 1962 e 1964 e que, até pouco tempo atrás, ostentava o recorde do mais caro automóvel já leiloado na história: 28,2 milhões de euros. O outro modelo (que teve meu voto, vencido, diga-se) não é tão contemporâneo, mas estampou o papel de parede de computadores de quatro em cada cinco Viciados em Carros no final dos anos 90: a F40. Em 2017, essa obra-prima da história automotiva completa exatos 30 anos. E com muita história para contar.

O superesportivo nasceu em 1987. Mais precisamente foi apresentado em 21 de julho de 1987. E sua criação se deveu a muitas razões. Uma delas foi para aplacar o insucesso da 288 GTO, que não conseguir chegar ao nível do rival 959, de 1986. A Porsche tinha então apossado o posto de principal criador de supercarros. Ainda assim o GTO rendeu muito dinheiro à fabricante. Os carros clássicos estavam em alta à época e já era sabido que o GTO entraria para essa seleta lista.

Os preços subiram mais que o padre do balão. A F40 seguiu o mesmo caminho. Em 1991, um F40 zero-quilômetro nos EUA custava US$ 399 mil pela tabela oficial da Ferrari. Mas há relatos quem conseguisse comprar um por esse preço poderia vendê-lo por mais de US$ 700 mil. Até o ex-piloto de F1, o inglês Nigel Mansell, não resistiu a tentação e vendeu seu F40 que ganhou quando era piloto da Ferrari. Após frequentar algumas garagens, o carro foi leiloado em 2014 por quase US$ 900 mil. Outro motivo foi a reclamação de clientes mais puristas sobre o luxo excessivo que os italianos estavam introduzindo nos carros.

FIORAVANTI

Ferrari F40

Uma parte da história diz que a F40 foi o último modelo no qual Enzo Ferrari participou do processo de criação e construção. Outra parte conta que il commendatore, nascido em 1898 e já com 89 anos à época, não influenciava mais nas decisões da empresa. Em 1969, a marca italiana adquiriu 50% das ações. Após sua morte, em 1988, essa fatia aumentou para 90%. A mente capitalista da Fiat (dona da marca) não teve dúvidas: uma continuação do GTO uniria o útil ao agradável, garantiria alguns milhões para os cofres e, de quebra, suplantaria a Porsche. Eis que surge a F40.

E ela nasceu na terra. Isso mesmo. Quando o famoso Grupo B de rali foi cancelado em 1986, a Ferrari se viu com cinco protótipos da 288 GTO Evoluzione que haviam sido construídos. Fazer um carro de corrida para ruas foi a saída encontrada. O nome tem significado. O F, claro, é de Ferrari. Já o 40 vem do quadragésimo aniversário da marca, comemorado àquela época. A ideia inicial era produzir apenas 400 carros dedicados às pistas, mas que pudesse andar nas ruas. E a Ferrari seguiu a receita à risca. O carro que saiu das pranchetas de Leonardo Fioravanti, designer do renomeado estúdio italiano Pininfarina, tinha apenas uma frivolidade: ar condicionado. Nem os vidros eram elétricos. Direção hidráulica? Nem pensar. Uma cordinha substituía a maçaneta interna. Para abrir a porta bastava puxá-la. O resto era feito para acelerar: fibra de carbono, partes revestidas com carpete, volante de três raios, alavanca de câmbio e bancos do tipo concha.

O F40 foi o primeiro carro de produção em série a utilizar material compósito (um mix de resina e fibra de carbono). A carroceria tinha apenas onze peças devidos às grandes seções. A traseiro, por exemplo, é peça única. A massa total foi reduzida em 20% – o carro pesava 1.100 kg – e a rigidez estrutura era três vezes maior que na GTO. Foi providenciada uma suspensão independente por meio de braços triangulares sobrepostos, molas helicoidais e amortecedores hidráulicos, juntamente com barras antirrolamento dianteiras e traseiras. Um sistema de suspensão controlado eletronicamente e ajustável em altura tornou-se disponível como opção durante o período de produção. As rodas de cinco raios e porca única eram fabricadas pela Speedline. Calçavam pneus Pirelli P-Zero e mediam 245/40 na frente e 335/35 atrás, ambas com 17”. O sistema de frenagem tinha disco nas quatro rodas, mas sem ajuda de tecnologias como ABS e nem mesmo servofreio.

ACRÍLICO

Ferrari F40

Entre 1987 e 1992, 1.311 unidades foram fabricadas. A plataforma era da 288 GTO, mas as bitolas dianteira e traseira eram maiores. A construção seguiu o princípio do chassi de aço tubular, agora com uma seção dianteira progressivamente deformável para  atender a legislação mais rigorosa em todo o mundo. O chassi F 120 AB tinha referência nos carros de rua produzidos em Maranello. E a numeração contínua partia de 7500. Todas as F40 produzidas têm chassi entre 76624 e 95317.

Apesar de toda essa história aí acima, uma parte do carro era a mais importante: o motor. O ponto de partida era novamente o 288 GTO. O V8 posicionado a 90°, com codinome F 120 A, tinha posição central-traseira, era todo feito de alumínio, tinha duplo comando nos cabeçotes e quatro válvulas por cilindro. Diâmetro foi aumentado e o curso reduzido: de 80 mm x 71 mm para 81,9 mm x 69,5 mm. A taxa de compressão era de 7,7:1. O deslocamento cresceu de 2.855 cc para 2.936 cc e a pressão dos dois turbos foi ampliada de 0,8 para 1,1 bar. No final, são 478 cv a 7.000 rpm e nada menos que 58,8 mkgf de torque a 4.000 rpm. A força é enviada para as rodas traseiras por meio do câmbio manual de cinco marchas no melhor estilo dogleg. Tal conjunto levava a Ferrari F40 da imobilidade aos 100 km/h em 4,1 segundos. O superesportivo ainda tem o título de primeiro automóvel produzido em série a ultrapassar a barreira dos 320 km/h. Sua máxima é de 324 km/h.

Porém, bem mais que os frios números de ficha técnica, a F40 ficou conhecida por ser um esportivo em estado bruto. O motor era coberto com um acrílico transparente. Ou seja, nada. Ainda bem. O ronco visceral, selvagem e cru dos oito canecos superava de longe qualquer falta de sistema de som. A “embolada” em baixas rotações e a trilha sonora a cada reduzida de marcha era espetacular. O superesportivo honrava de todas as formas o legado criado e deixado por Enzo Ferrari.

Leia também
Comente!*