O melhor emprego do mundo
P. LEFEBVRE FOTOS F. BOLUSSET
Você pode não saber o que é um "collaudo vetture", mas certamente vai sonhar em se tornar um. Fomos a Maranello, na Itália, para conhecer o melhor emprego do mundo
O crachá, a bolsa de couro e a almofadinha de Doriano Borsari, o italiano que tem o trabalho dos nossos sonhos
Doriano Borsari é um empregado consciencioso. A cada manhã, antes de pegar o caminho do trabalho ao volante de seu Fiat Punto, este italiano baixinho de 55 anos checa os seus pertences dentro da velha bolsa de couro: documentos, o casaco vermelho e, principalmente, sua almofada. Não, Doriano não dorme no serviço – em seu trabalho não há como pegar no sono, mesmo se, às vezes, ele próprio tem a impressão de estar sonhando. É que quando se percorre 150 mil quilômetros por ano na estrada e nos circuitos fechados, é melhor estar bem acomodado.
Borsari, um piloto de mão-cheia, tem o melhor emprego do mundo. Ele testa Ferrari dois a três anos antes que as máquinas cheguem até os clientes. Cumpre esta deliciosa rotina há 25 anos!
Na Ferrari, ele é o “collaudo vetture” que, na língua de Machado de Assis, signifi ca “piloto de testes”. Ao acompanhar um dia na vida de Borsari no papel de lastro de areia (lugar do passageiro, na língua do “collaudo”), eu defi niria o termo como “homem ultra-sortudo”. Mas ninguém se torna um domador de cavalos empinados assim tão facilmente. É preciso cumprir cinco anos de formação para atingir esse Graal. E Doriano acrescenta o gesto à fala para demonstrar que estudar não é o sufi ciente: frenagem com o pé direito ou com o pé esquerdo, de acordo com o humor, ele vai me dando uma pequena amostra de seu talento – e nós estamos rodando a apenas 50 km/h dentro da cidade.
Acima, Borsari testa os amortecedores em uma estrada sinuosa ao redor de Maranello