COMPETIÇÃO Mamute do sertão
Aceleramos o papa-tudo do Rali dos Sertões
Carlos Cereijo Fotos Saulo Mazzoni
Após este clique, nosso fotógrafo engoliu 2 kg de terra e 25 pedras
Sejamos francos: encontrar um caminhão no trânsito não é uma situação empolgante - eles são desajeitados, lentos, soltam fumaça preta e atrapalham nossa visão. Caminhão, em poucas palavras, é um estorvo. Será? Você também mudaria de ideia ao rodar com o Ford F-4000 do piloto Edu Piano (Equipe Ford Racing Trucks), tricampeão do Rali dos Sertões.
Você deve saber que este monstro azul cuspidor de poeira não é o mesmo caminhão que leva as frutas para a feira do seu bairro. Várias modificações são feitas para que ele suporte os longos trechos do rali (veja quadro). Portanto, este caminhão não é vagaroso como aquele que nos encurrala na subida da serra - do contrário, é rápido e violento como um touro correndo pelas ruas estreitas de Pamplona.
É UMA CILADA, BINO
Primeiro, uma volta em alguns trechos rápidos no banco do navegador (na concha do meio viaja o mecânico). O grandalhão da Ford sai grudando a parte de trás do meu capacete ao banco. Edu Piano enche o motor que urra como um dinossauro acuado. A curva se aproxima e meu pé direito por instinto busca o pedal do freio no vazio do assoalho.
O tricampeão joga a dianteira do F-4000 em direção a tangente. O resto dos quase 4.000 quilos ameaça escapar, mas logo é dominado por Edu. A poeira sobe, e no retrovisor vejo o fotógrafo tentando proteger o equipamento dentro da jaqueta. Após várias curvas dessa maneira, o coitado parecia um tijolo humano. Passar 13 dias nesse ritmo é coisa digna de admiração. A cabine chacoalha mais do que a credibilidade do Senado Federal.
São solavancos constantes, o capacete chega a bater na gaiola de proteção. Se você reclama do conforto do seu 1.0 já bastante rodado, conforme-se: no F-4000 esta qualidade não existe. Edu conta que quando chegam às cidadezinhas no percurso do Sertões, as equipes têm de usar os táxis da região. São latas-velhas ambulantes com 25 anos nas costas, mas se mostram muito macias depois de horas de pancadas dentro do caminhão. "Parece que estamos dentro de um carro de luxo", brinca Edu.
LEVANDO O MAMUTE
Chega minha vez de sentar ao volante do paquiderme azul. Os comandos são iguais aos do caminhão de rua, mas a cabine é pelada e crua. Tudo muito robusto e pensado para não gerar manutenção. Pé na embreagem e a primeira marcha nos coloca em movimento. Com a segunda engatilhada, afundo o pé no acelerador.
O mamute sai engolindo a estrada sem mastigar. A marca de 3.000 rpm chega e já busco a terceira marcha. Uma curva leve para a direita se aproxima. Mantenho uma velocidade segura para minha falta de experiência ao volante do peso-pesado e contorno o trecho.
O peso e a altura de veículo de carga contrastam com a tocada esportiva e agressiva do rali. O motor diesel de 265 cv de potência é como um rinoceronte. Da próxima vez que você encontrar um caminhão F-4000 saiba que ele tem um primo bem nervoso correndo na terra.
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