Clássicos Triumph TR4 Simples, robusto. E encantador
Luiz guerrero
A Triumph estava em maus lençóis naquele fim dos anos 50, começo dos 60. A empresa, que em 1944 havia sido comprada pela Standard, outra fabricante de automóveis britânica, encontrava-se no seguinte dilema: ou achava um comprador ou fechava as portas. A crise se abatera em Coventry quando Walter Belgrove, que acumulava as funções de chefe de estilo e engenheiro de carroceria, deixou o grupo em 1955. Desde então o cargo ficara vago. A despeito da tradição e do passado de vitórias nas pistas com os modelos TR, criados por Belgrove, só um maluco aceitaria a proposta de trabalhar em uma empresa que no dia seguinte poderia decretar falência.
Só mesmo os ingleses para reunir, em um mesmo carro, painel revestido com raiz de nogueira, couro da melhor qualidade e espírito esportivo
Trator
Mas o maluco apareceu. Chamava-se Giovanni Michelotti, era italiano de Turim e tinha lá seus 35 anos de idade quando aceitou o convite para renovar a linha da Standard e criar um roadster dois lugares para substituir o TR3. E, com isso, tentar abreviar a agonia da Triumph. Pepino dos grandes: a marca nunca investira muito dinheiro em seus projetos, nem nos tempos de fartura. Que dizer agora, à beira da falência? Mas Michelotti não tinha juízo e precisava do emprego. O italiano era do ramo, mas seu currículo tinha poucas linhas – apenas uma passagem pela Carrozzeria Vignale (empresa familiar de Turim que fazia projetos para os grandes fabricantes italianos e também construía carros com marca própria). O fato é que ele trabalhou rápido: em três meses, apresentou a Harry Webster, chefe do departamento técnico da Triumph e o cara que o havia contratado Michelotti, sua releitura do TR3 – um belo roadster de linhas puras e detalhes surpreendentes que seria lançado em 1961 com o nome de TR4. É o carro que estamos mostrando nesta reportagem.
Alavanca de câmbio, pertinho da mão direita
E os ventos começaram a soprar a favor da Standard-Triumph. O grupo seria comprado, em 1960, pela Leyland Motors, fabricante de veículos pesados (incluindo aqueles ônibus tipicamente londrinos de dois andares) e, graças à ambição, à rapidez e ao talento de Michelotti, contava com uma família completa de carros – Herald, Vanguard e TR. Se os dois primeiros tinham mercado cativo na Índia, a linha TR era praticamente toda destinada aos americanos. A base mecânica e a maioria das peças do TR4 vinham do TR3, cujo motor era derivado do quatro cilindros 8V do trator Ferguson (e aqui cabe um parênteses para lembrar que a Standard construía tratores sob licença da marca americana). É o que talvez explique a resistência deste equipamento – os TR3, e depois os TR4, tornaram-se um dos carros mais cobiçados para competições de rali e provas de endurance. Se havia problema, este era na parte elétrica, o que não era demérito: todos os carros ingleses da época tinham, pois eram equipados com sistema elétrico Lucas.
A capacidade cúbica, antes limitada a 1.991 cm³, fora ampliada para 2.138 cm³ e a potência elevada para o 105 cv (4.600 rpm). A marca também oferecia, sob encomenda, a instalação de compressor mecânico que elevava a potência para cerca de 200 cv. A alimentação era feita por dois carburadores SU e a transmissão manual de quatro marchas sincronizadas era padrão, mas havia opcional de uma caixa com overdrive que deixava o carro mais solto, e mais econômico, na estrada.