Ford GT 40 Americar A lenda ganha uma réplica perfeita fabricada em São Paulo
Arnaldo Keller Fotos João Mantovani
O caminhão-prancha para em frente de casa às seis da manhã e eu já saio levando um cafezinho para os madrugadores Fábio e Ricardo que me trazem a “encomenda”. Sobre a prancha, a recriação do Ford GT40, um lançamento da Americar Veículos Especiais, empresa especializada em réplicas de Santo André, na Grande São Paulo. Que beleza! – pensei, coração batendo alegre.
Azul com faixa laranja, as cores da Gulf Oil, a empresa que patrocinou a equipe do britânico John Wyer para as 24 Horas de Le Mans nos anos 1968 e 1969. Nesses dois anos, o mesmo carro (sim: o mesmo chassi) venceu a prova, fato inédito até então. Em 1968, o mexicano Pedro Rodrigues e o alemão Lucien Bianchi foram os ganhadores com o carro 9; no ano seguinte, o belga Jacky Ickx e o britânico Jackie Olivier venceram com o mesmo carro número 6.
PAPAI VAI BRINCAR
As linhas e as medidas da réplica são iguais às do GT40 de 1968, mas as cores são um pouco mais fortes que as do original. Jean Cleber, o dono da Americar, diz que isso é intencional para que o carro se destaque nas fotos. Nos dois anos anteriores, 1966 e 1967, outros GT40 também haviam vencido em Le Mans (veja a C/D 1). Mas os carros tinham linhas um pouco diferentes e outras cores. Naqueles anos, a equipe era de fábrica que, com essas duas vitórias, se dera por satisfeita, pois já levara a marca Ford ao topo do automobilismo mundial ao derrotar as então imbatíveis Ferrari.
Mochila na boleia do caminhão, pulo para dentro e assim vamos nos safando do trânsito paulistano até desembocarmos na Rodovia dos Bandeirantes, onde o mundo se abre nos convidando a passear. Paramos no primeiro posto da estrada e o GTA 40 é rodeado por gente maluca por carro.
Aproveito para ver a máquina por baixo. Uma chapa ocupa quase toda a área. Isso é bom: menos turbulência aerodinâmica, menor arrasto, melhor fluxo de ar. Quanto mais rápido o ar passar por aqui, melhor – mais ele vai sugar o carro de encontro ao solo. O GTA 40 é retirado da plataforma, jogo a mochila ao lado dos pés do Fábio, que iria de carona. Não há porta-malas – e ainda bem que não há. Isso aqui é carro para esporte. Porta-malas sugere esposa, filhos, sogra... Este é um carro para os momentos de egoísmo que de vez em quando nos permitimos, do tipo “esperem que eu já volto: agora o papai vai brincar um pouco.”
O carro é baixo. Sua capota está a 40,5 polegadas do chão (daí o 40 depois da sigla), ou seja, 103 centímetros. De tão baixo que é, para facilitar a entrada do motorista, a maior parte da capota se abre junto com as portas. Por esse palmo de largura de capota que separa as portas passam os tubos da gaiola protetora. O chassi é de tubos de aço recobertos com chapas de alumínio. E o carro é largo, tem 1,80 metro de largura. Os bancos estão quase ombro a ombro, no centro do carro. Nas laterais estão os tanques de combustível (dois tanques conectados). Daí que para entrar temos de nos sentar sobre o depósito e virar o corpo para passar as pernas por baixo do volante. A entrada parece apertada, mas não é. Ofereci o assento do motorista aos curiosos e todos entraram rapidinho, sem reclamar. Na prática, amigo, quando você vê, já está lá dentro. Algo te suga para lá.