GT de vida mansa Câmbio automático em carro GT? É coisa de Vectra e, agora, de Golf
LUCAS LITVAY FOTOS CLAUDIO TEIXEIRA
GT COM AT VIRA E.T. Só na cabeça do pessoal do marketing das fábricas é que um carro que ostenta o logotipo GT (de Gran Turismo) pode receber uma AT (sigla em inglês para transmissão automática) impunemente: a essência de um Gran Turismo é a caixa manual e um haras sob o capô. Purismo? Claro que sim. Mas como o que temos são dois ‘GTs’ automáticos, vamos colocar ambos lado a lado – o Chevrolet Vectra GT e o recém-chegado Volkswagen Golf GT. Além das duas letras prediletas da turma de marketing e da falta da embreagem, eles têm muito em comum: os dois são equipados com motor 2.0 longe de ser moderno, aceitam álcool e gasolina e só tratam bem quem viaja no banco dianteiro.
A lista de diferenças, bem, ela está longe de ser acanhada. Tanto Vectra GT como Golf GT vestem roupas fora de moda, mas a do Chevrolet é mais fashion. Ele usa o mesmo traje do Astra europeu, cuja coleção é de 2004, enquanto o Golf... o nosso Golf é uma adaptação da quarta geração do modelo, aquele de 1998. Vale lembrar (apenas para instigar a sua inveja ou sua ira) que os europeus já rodam com a sexta geração do hatch (C/D 11). Mas o VW tem qualidades e uma delas é o ponto crucial neste comparativo: o câmbio. O Golf traz uma caixa mais moderna, com opção de trocas manuais, ao passo que o Vectra conta com uma caixa obsoleta de quatro marchas. Em contrapartida, o Chevrolet agrada seu bolso. O preço é bem mais baixo e o seguro, também.
Quem leva vantagem nesta equação? Vire a página e descubra qual é o E.T. mais simpático nesta disputa GT/AT.
GOSTAMOS
Preço, suspensão, estilo
PODE MELHORAR
Motor, câmbio, acabamento
CONCLUSÃO
Bate um bolão, mas toma cartão vermelho
Em 1994, o lateral esquerdo Leonardo chegou à Copa dos Estados Unidos como uma esperança: ele estava batendo um bolão no São Paulo F.C. e era um dos trunfos para tirar o Brasil da fila de 24 anos sem títulos. Mas sua maior façanha foi nocautear o jogador americano Tab Ramos com uma cotovelada. Ficou fora da copa, viu da arquibancada Baggio errar o pênalti e o Brasil ser campeão.
Lembrei do fato ao ouvir a entrevista de Leonardo no rádio, enquanto eu dirigia o Vectra GT. O locutor dizia que Leonardo foi um potencial que não estourou como poderia, ao mesmo tempo em que eu lutava com o câmbio do Vectra para conseguir ultrapassar um caminhão à minha frente. “Leonardo tinha tudo para brilhar mais que Bebeto”, opinava o radialista. E eu ali, pisando fundo no acelerador, esperando a resposta que não vinha do câmbio automático de quatro marchas. A comparação foi inevitável: o Vectra GT é um Leonardo. Um carro cheio de potencial, de qualidades, mas que não brilha.
Veja nas fotos como o Vectra inspira esportividade. O desenho é o mesmo do Astra europeu de 2004. Pode-se não gostar, mas é difícil dizer que as linhas não têm harmonia. Na versão testada, as rodas são de 16 polegadas, calçadas com pneus 205/55. Mas existe outra opção, a GT-X, com rodas 17 e pneus 215/45. A suspensão segue a mesma receita do sedã Vectra, com eixo de torção na traseira, mas no hatch a calibração de molas e amortecedores é mais rígida. É fácil perceber isso em curvas: o carro é firme sem ser desconfortável. Mas por que o GT não cativa?
O inimigo mora ao lado, melhor, na frente. É o motor 2.0 8V, que nasceu há mais de vinte anos com o Monza. Rende 121 cavalos com gasolina e 128 cavalos com álcool, com torque de 19,6 mkgf. Robusto, mas obsoleto. Não que o Golf GT seja melhor servido (o 2.0 do Golf é uma variação do AP usado pelo Santana). O que pega no motor do Vectra é o funcionamento áspero e a falta de fôlego em baixa rotação.