Reportagens Um dia na pele de Alonso Nosso reportér dirige um Renault Fórmula 1. E revela: acelarar é fácil - o difícil é frear
Rubén Daray
Quando ganhei meu primeiro campeonato na categoria Turismo Nacional, na Argentina, tinha 27 anos e muitas ilusões, que acabaram sendo desfeitas por Héctor Staffa, então preparador de Carlos Reutemann. "Você precisa evoluir muito para dirigir um fórmula", disse. Uma das ilusões era ser piloto de Fórmula 1: nunca em minha vida desejei algo com tanta intensidade. Agora, aos 59 anos, estou em um vôo de Paris a Marselha sofrendo de ansiedade porque meu sonho de toda a vida estava ali, no sul da França, mais exatamente no circuito de Paul Ricard: dentro de mais algumas horas, eu iria dirigir um carro igual ao de Fernando Alonso!
Na mesma van que me trouxe do hotel, dei a primeira volta no circuito para conhecer o traçado e o significado dos cones coloridos espalhados na pista. O azul indicava o ponto de tangente; o verde, a zona de aceleração, e assim por diante. "As regras devem ser cumpridas: não há negociação", foram as primeiras palavras do instrutor antes que eu tomasse contato com o monoposto com motor Renault 2.0 e 185 cavalos de potência. Cada detalhe estava previsto. Os técnicos da Renault explicaram, com muito conhecimento e profissionalismo, como dirigir esse primeiro carro - detalharam até como proceder em um eventual acidente. Recebi um macacão antichama, um capacete, luvas, as sapatilhas e a balaclava e, já com cara de piloto, me acomodei no cockpit.
Dores no pescoço: maravilha!
Gastei as primeiras voltas para conhecer cada curva de Paul Ricard. À frente, ia um Renault Mégane de competição que me guiou a 140 km/h durante seis voltas. O fórmula, que tem caixa sequencial com comando por alavanca, ia rápido e isso me fez constatar que meu físico não combina com um carro estreito: os cotovelos doíam, os joelhos também, devido à força de gravidade (G) que empurrava meu corpo nas curvas rápidas. Que me importava! Estava curtindo demais o momento. A cada volta, a velocidade aumentava, sempre com o Mégane à frente.
O passo seguinte foi visitar um grupo de fisioterapeutas, que checaram o estado do pescoço e da coluna vertebral e mostraram um pouco do que é exigido de um piloto para guiar rápido na Fórmula 1: as forças laterais que me faziam sentir o pescoço não eram nada se comparadas ao que viria em seguida.
Voltei ao carro de 185 cavalos, agora para guiar com a pista livre. Foram oito voltas que serviram para buscar mais os meus limites que os do monoposto. Mas meu pescoço começava a sentir a falta dos músculos que me permitiriam manter a cabeça firme. Meus cotovelos pareciam mais inflamados a cada volta. A sensação era maravilhosa. Estava na França, em Paul Ricard, uma das mais charmosas pistas da Europa, guiando um fórmula! O que mais podia pedir? Cada volta era mais rápida. Cada vez mais me entendia melhor com o carro e memorizava o circuito, buscando os lugares corretos de frenagem e aceleração. Era só um aperitivo para, finalmente, assumir o comando de um Fórmula 1.
Dois minutos cravados não são um grande tempo, mas não era minha intenção assinar um contrato como piloto da equipe Renault. Minha idéia era não fazer alguma estupidez que me impedisse de guiar os 700 cavalos do F1. A telemetria que me mostrava cada volta era uma ferramenta maravilhosa para analisar os meus pontos fortes e fracos - meu maior erro era não frear no limite, mas nunca havia guiado um monoposto - e se acostumar a frear tão próximo de uma curva é mais difícil, muito mais, do que acelerar.