Revolução elétrica: uma volta no Chevrolet Bolt

Eis a prova de que os carros elétricos vieram para ficar

Fotos: Marc Urbano | Texto: João Anacleto

É difícil entender porque as fabricantes querem tanto dizer ao mundo que você é um cliente das invenções híbridas ou elétricas. Para diferenciá-los da multidão carros como os Toyota Prius e Mirai, os Honda Clarity e Insight e o Nissan Leaf fazem com que as pessoas saibam que você gastou muito dinheiro para ter um carro feio. E riem. No fundo, no fundo, o mundo não é essa ilha de amizade com o meio ambiente que querem vender para você. O mundo é cruel, rapaz. E, talvez, também por isso ainda tantas picapes e SUVs a combustão, com seus donos tatuados e suas madames mais cheinhas, respectivamente, figurem entre os carros mais vendidos e desejados de países como os Estados Unidos.

Estamos em Detroit, o pólo positivo dos motores insanos – sim, todos os V8 americanos que você amou, ou ama, um dia respiraram o ar daqui –, para testar uma nova proposta dentro desse universo elétrico um tanto paradoxal. Mas o Chevrolet Bolt de cara já se desgarra de tal dogma, quase arbitrário. Ao contrário das propostas dos japoneses, ou de carro como o BMW i3, se não fosse famoso ninguém diria se tratar de um elétrico. Até andar nele. Em resumo, o Bolt é como uma nova geração desse tipo de veículo. É o carro elétrico 2.0. Sem exagero.

Chevrolet Bolt

144 KM EM 30 MINUTOS

A começar pelo desenho, o que mais chama a atenção são as formas simples e cordiais, sem invenções espalhafatosas. Um pouco maior que um Kia Soul e com um jeitinho de Honda Fit, ele agradaria a qualquer pessoa que já plantou uma árvore. Ele é a primeira prova concreta de que os elétricos podem estabelecer raízes de vez no cenário automotivo das grandes cidades. E das pequenas também. Com uma autonomia de 381 km, ele expurga qualquer senão no que diz respeito à autonomia. Digno de celebrar.

Sob a simpática carroceria, que parece o cruzamento entre um hatch médio e uma minivan, funcionam 288 seções de baterias de íon-lítio – como a do seu celular – desenvolvidas pela LG capazes de gerar 60 quilowatts-hora de energia e responsáveis por 435 kg dos seus 1.625 kg. Por um motor essa carga completa representa em torno de 202 cv de potência e 36,7 mkgf de torque, o que daria para colocá-lo no hall dos foguetes de bolso, em especial pela aceleração de 0 a 100 km/h em apenas 6,5 s! 

Para recarregar as baterias, o Bolt vem de série com um sistema comum a qualquer elétrico que permite totalizar a energia das baterias em 9 horas em uma tomada de 240V. A marca oferece, como opcional por US$ 750, um sistema mais poderoso, que pode ser instalado no carro e na sua casa, capaz de recarregar o equivalente a 144 km de autonomia em apenas 30 minutos.

Dessa maneira, o Bolt destrói os três pilares impeditivos para alguém, enfim, olhar com carinho para um carro elétrico. Aparência, autonomia e desempenho não são porblemas para ele.

Mas nada pode ser mais definitivo para a aprovação do que dirigir um carro desses. E nessa hora você vai estranhar. Nunca um carro elétrico foi tão amigável. Não há rangidos ou zunidos desnecessários em nenhum momento dos primeiros contatos.

Chevrolet Bolt

PREÇO DE CAMARO

O acabamento interno está em um bom nível de carro médio, assim como o desenho curvilíneo do cockpit. A manopla de câmbio – que acopla a uma única marcha – lembra os joysticks da BMW, seu volante é como o do Chevrolet Cruze. Já a posição de dirigir, um pouco mais alta do que o necessário em virtude da acomodação das baterias sob o assoalho, não mereceria críticas nem de Shaquille O´Neil. Seus bancos são um pouco mais duros e finos do que o habitual, afinal com tanto peso das baterias, algo deveria emagrecer. Na parte traseira há bastante espaço para as pernas e cabeça de dois passageiros adultos.

A experiência de condução é tão próximo do habitual que em 30 segundos você esquece que está em um carro elétrico. Sua central multimídia tem tela de 10,2”, é bem sensível, mas não traz navegador integrado. Economia boba perto de tanta tecnologia. No painel de TFT não há gráficos nem demonstrações complexas de funcionamento. Por lá estão claras as informações de autonomia, velocidade e quanto da energia você está usando naquele momento.

A suspensão trabalha com a postura habitual de um Chevrolet, sem ser molenga, nem dura demais, e a direção transmite a mesmíssima atmosfera de um veículo a combustão, só que sem as vibrações do motor ganhando giro. Com peso correto e discreto, tem diâmetro de giro de 10,8 m, comparável aos hatches compactos de 4 metros, o Bolt tem 4,16 m.

Além da patada de desempenho que só a eletricidade pode lhe dar, ele conta com uma interessante função de recuperação de energia na função Low, mas não apenas no câmbio, e sim por uma tecla em uma aleta no volante. Isso, além de permitir que você dirija apenas com o pedal da direita, freando o carro pela aleta, ainda coloca a sua cabeça numa infinita busca por aumento de autonomia.

O único problema do Bolt é o preço. Com as reduções de impostos do governo americano, ele sai por US$ 30 mil sem opcionais. Um Camaro V8, sua antítese, básico sai por R$ 37.900, mesmo valor do Bolt sem os descontos. E, por mais que ele seja a coisa mais importante que a indústria do carro elétrico já fez até agora, essa não é uma decisão fácil de se tomar.  Ainda

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