Ford Ka Trail: aventureiro artesanal

Nova versão aposta em receita diferente para recuperar o tempo perdido

Por Marcelo Moura // Fotos: Divulgação

Versões aventureiras dos carros são como cervejas artesanais. A onda existe há muito tempo – a Fiat iniciou a popularização do primeiro com o plastificado Palio Adventure em 1999. As marcas perceberam esse espaço aberto e entraram de sola. Chevrolet, Fiat, Volkswagen, Hyundai, Toyota e Renault racham o segmento atualmente. Sentiu falta de alguém? Sim, por muito tempo a Ford ficou mais perdida que eu e você, que entendemos de cerveja apenas quando ela está no copo, quando as pessoas começam a debater sobre malte, lúpulo e fermento. Mas o tempo de comer bola acabou: eis o aventureiro Ka Trail, que chega nas versões 1.0 (R$ 47.690) e 1.5 (R$ 51.990).

Aqui vale um adendo. A marca já teve Ka e Fiesta Trail em um passado não muito distante. Mas o “ar de aventura” causado pelos plásticos e rack de teto começou como um kit, que podia ser colocado em modelos usados e com itens comprados separadamente. Desde que as antigas gerações foram descontinuadas e o kit Trail morreu, a Ford não teve nada para brigar com o sucesso de carros mais novos como HB20X e Onix Activ.


RECEITA

Com tantos rivais disputando espaço o Ka Trail tentou seguir duas receitas para tentar te conquistar. A primeira delas é pegar leve no design. Nada de quebra-mato saliente, rack alto e molduras de plástico largas, como os adversários mais espalhafatosos (alô Etios Cross e HB20X) fazem. Discreto, traz moldura preta nas caixas de rodas, maçanetas e retrovisores pintados, faróis com máscara negra e moldura escurecida para as luzes de neblina, rack de teto pequeno, adesivos e as rodas de liga leve de 15’’ escurecidas (estas o melhor acerto da versão). A intenção é pegar aquele cliente que acha um aventureiro cheio de penduricalhos tão exagerado quanto um pai que veste meião, chuteira e caneleira para chutar uma bola dente de leite com o filho.

A segunda é provar para o cliente que ele está levando algo realmente diferente. A solução foi aumentar o vão livre do carro em 3,1 cm – 1,8 cm levantados na suspensão e 1,3 cm na altura do pneu maior de uso misto. A mudança está na média dos 3 cm extras conseguidos pelo Onix Activ em relação ao normal, mas abaixo dos 4,1 cm do HB20X. Desafiado pela engenharia da Ford, coloquei minha conta em risco e, durante uns dias com o carro, cacei todas as lombadas e valetas de São Paulo. Nenhuma, nem mesmo uma valeta mortal que mais parecia uma trincheira de guerra, conseguiu fazer o Trail pegar embaixo.


Para não mudar muito a estabilidade do carro com a altura maior, foi preciso mudar a rigidez da suspensão, alterar a carga das molas, aumentar a barra estabilizadora dianteira e recalibrar direção elétrica e freios. O resultado é um aventureiro com comportamento dinâmico quase igual ao do Ka convencional nas curvas, mas sensivelmente mais duro e arisco com as imperfeições do solo.

Fora isso, o Trail é o Ka que já conhecemos. E isso não é algo ruim. Desempenho honesto com o motor 1.0 TiVCT de 85 cv e 10,7 mkgf de torque. Além dele, há a versão com o 1.5 Sigma de 110 cv e 14,9 mkgf. Ambos trabalham em conjunto com transmissão manual de cinco velocidades. Assim como no Ka convencional, ainda não há previsão de uma versão automática.  


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