Avaliação: Volkswagen Golf Variant

Golf Variant é a prova de que gastar R$ 100 mil em um SUV é pecado

Texto: João Anacleto

Algumas ideias chegam para ficar. Há 20 anos celular era artigo raro nos bolsos do brasileiro e as mensagens de texto SMS engatinhavam em aparelhos Nokia e Motorola tão pesados quanto uma berinjela. Àquela época a perua era o carro da família. Tinha o espaço interno de um hatch e o que valia mesmo era o tamanho do porta-malas. Hoje, como você bem sabe, o celular é um terceiro braço e coloca em risco até a existência de laptops e computadores de mesa, e as peruas estão mais raras do que lista telefônica. Mas nem por isso morreram. Vá à casa da sua avó e veja lá a lista. Espie a garagem de um Viciado em Carro e pode ser que você encontre uma perua.

AVATAR

Por R$ 97.020, a versão Comfortline desse Golf com porta-malas de 605 litros pode ser sua. E isso é mais em conta do que optar por um Honda HR-V EXL, de R$ 101.400, que traz os bancos de couro que a perua do Golf não tem, ou um Jeep Compass Sport, que parte de R$ 103.490 e tem acabamento dos assentos igual aos da perua. Contudo, o carro das fotos custa mais do que isso. Ele vem com o pacote Exclusive que equipa o carro com o sistema multimídia Discovery Media, com GPS integrado, App Link e até tutorial sobre como economizar combustível, rodas de 17, volante multifuncional, sensores e câmeras de ré e controlador de velocidade automático. Aí o preço sobe a R$ 107.281. E sem bancos de couro, disponíveis apenas na Highline.

Aí não vale a pena, diria o dono do SUV. Vale sim. Não é só do preço que estamos falando. Você pode imaginar que o espaço nem se compara ao dos dois SUVs mais vendidos do Brasil (HR-V e Compass pela ordem), nem o conforto a bordo. Certo? Errado! A bem da verdade na parte traseira você pode até se incomodar com o espaço para a cabeça se, como eu, se parecer mais a um Avatar do que a um terráqueo. Se for uma pessoa normal, não. A largura do habitáculo e o espaço disponível para as pernas são ligeiramente menores do que dos SUVs. E o esforço para entrar também. Mas quem liga para isso quando você pode dirigir na melhor das posições? E quando tem 605 litros de porta-malas (contra 431 do HR-V e 410 do Compass)?

Volkswagen Golf Variant

JAGUAR F-PACE

As amplas regulagens do assento do motorista permitem que qualquer ser humano se acomode com honestidade. Sob o capô está outra obra magistral no deserto de engenharia dos SUVs mais vendidos. O 1.4 TSI, que não é dos mais novinhos, está uma década à frente dos 1.8 e 2.0 aspirados de Honda e Jeep, respectivamente. O câmbio Tiptronic de 6 marchas, que entrou no lugar da caixa DSG de 7 marchas desde setembro do ano passado. Foi-se também a suspensão independente e a versão com câmbio manual.

Dinamicamente, comparar o desenvoltura de uma perua com o de um SUV é como ver a corrida entre um cavalo e um touro. Além de desdenhar de curvas mais fechadas, em baixa ou alta velocidade, a perua aderna menos a carroceria e ainda sai mais inteira de situações extremas, justamente por estar mais perto do chão. Seu peso de 1.327 kg não é o que se pode chamar de leve, mosca ou pena. É um médio ligeiro que se vale de 25,5 mkgf de torque para deixar os utilitários de mesmo preço comendo poeira nas acelerações. E ainda bebe menos. A direção tem uma ligação mais íntima com o motorista e apesar de estar mais perto do chão ela se dá melhor com os buracos.

Ainda que ungida pelos deuses da engenharia automotiva, quase ninguém quer saber dela. Nos primeiros seis meses do ano foram 359 unidades vendidas. Menos do que um Jaguar F-Pace, SUV que começa em R$ 309.700. Mesmo comprovadamente melhor que os SUVs de mesmo preço, ela provavelmente não resistirá a tanta heresia. Somos mesmo uns pecadores.

Volkswagen Golf Variant

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