Avaliação: Chery QQ

O afável carrinho chinês sofre por conta própria

Fotos: Divulgação | Texto: Raphael Panaro

“Que fase!”. “chamar isso de carro é bondade sua”. “Ainda tá vivo?”. Eu já esperava esses tipos de comentários quando publiquei uma imagem do sorridente Chery nas minhas redes sociais. O preconceito com carros chineses – e ainda mais com o QQ – é latente. Hostilidades virtuais à parte, entro no simpático carrinho vermelho despido de qualquer implicância pelo fato de ser chinês, de ser Chery ou de ser o QQ. Mas quando saio...

A Chery produz o subcompacto em Jacareí (SP). Apesar da nacionalidade brasileira, a tática é chinesa. Bons equipamentos e preço competitivo. Avaliamos a versão ACT, de R$ 31.490. Entre os itens de série destaco o ar-condicionado, direção hidráulica, vidros elétricos dianteiros e traseiros, rodas de liga leve de 14” e sensor de estacionamento. A quantia pedida é convidativa para quem busca um compacto urbano 1.0 e não tem grana para comprar um Fiat Mobi básico (R$ 33.700) e muito menos um VW Take Up (R$ 37.900). O problema do QQ são os detalhes.

Ajuste de altura do banco? Nem pensar. Do cinto de segurança? Também não. E do volante? Nenhum. Se estivéssemos no final dos anos 90 até entenderia os comandos dos vidros elétricos centralizados perto do freio de mão. O rádio, inclusive, parece ter vindo da mesma época, mas com uma pitada de modernidade: entrada USB. O som é de rádio AM. 

SUNGA BRANCA

O QQ subverte aquilo que conhecemos como porta-luvas. Em vez do compartimento fechado na parte inferior do painel no lado do passageiro, o do modelo é aberto e localizado no meio da peça. Esconder algum objeto ali é como ir à praia de sunga branca. E o disco voador na parte superior do painel central? O suposto porta-treco tem ares de bandeja de canapés. Dá para colocar uns amendoins e ir comendo enquanto dirige... O espaço traseiro é digno apenas para duas pessoas. Além do terceiro ocupante ficar espremido, ele não dispõe do apoio de cabeça e nem do cinto de segurança de três pontos. O porta-malas é fundo, mas de difícil acesso e bem estreito (160 l).

Hora de colocar o pequeno em movimento. Seu painel de instrumentos é digital com o velocímetro centralizado. Já o conta-giros é sinalizado com barrinhas que aparecem/somem assim que as rotações sobem/descem. Meio tosco, mas tudo bem... O tricilíndrico 1.0 flex é uma grata surpresa. Os 75 cv e 10,1 mkgf de torque dão agilidade ao enxuto modelo de 940 kg, que ainda cabe em qualquer vaga com seus 3,56 m de comprimento. Os engates do câmbio manual de cinco marchas poderiam ranger menos ser mais precisos.

Mas o QQ peca, principalmente, na dinâmica. A carroceria rola demais e a suspensão, que até filtra bem os buracos, não consegue firmeza para o carro contornar curvas mais  fechadas com  segurança. Em velocidades elevadas a direção também perde a sensibilidade. Na hora de frear, o pedal  é esponjoso e baixo. A sensação é de que não vai parar. Olhando por fora, o Chery ainda passa a sensação de muito frágil.

O QQ evoluiu bastante frente à primeira geração. Mas acho que o preconceito e os comentários maldosos vão continuar. E a culpa é toda dele.

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