Aceleramos o Jaguar F-Type com motor 2.0 de 300 cv

Você não leu errado. O cupê mais bonito da Terra agora tem motor de quatro cilindros. Isso é bom?

Fotos: Divulgação | Texto: João Anacleto

Chega a ser indecente o quanto o F-Type é atraente. Se o seu carro fosse a sua esposa, você teria de se apressar para colocar os óculos escuros sempre que esse Jaguar aparecesse. É impossível não dar uma olhada, ainda que de rabo de olho, especialmente na traseira.  Só que tudo isso sempre esteve envolto na aura da potência. Afinal, a versão R, com seu borbulhane V8 de 5 litros, dotado de supercharger fazia dessa espécie de Miss Bumbum Eterna dos carros se tornasse quase uma santidade do prazer. Aquelas quatro saídas de escape davam o tom bélico. Tanto que quando você andava na versão 3.0 V6, que também tem o seu charme com duas saídas centrais e um ronco mais baixo, tinha de se acostumar a não delirar. Mas e agora, com a nossa beldade equipada com motor 2.0 de quatro cilindros, como é que vai ser? Quem em sã consciência permitiu isso? As respostas vêm a seguir.

A Jaguar não admite, mas ele nasceu, sim, para ser uma alternativa à família 718 da Porsche, leia-se Cayman e Boxster. E isso com a vantagem de não ter de produzir um mini-F-Type. Mata-se dois coelhos (718 e 911) num tiro só. Mas esse tiro, que chega no Brasil no 2º semestre de 2018, também pode sair pela culatra, afinal quem gastou (no Brasil) mais de R$ 780 mil para ter a versão V8 R, ou mais de R$ 450 mil para colocar as mãos no  V6 S, não vai achar legal ver o vizinho desfilando com este pitel tendo pago aproximadamente R$ 350 mil pelo carro. Isso pega bem mal.

Mas quem comprar um, terá do que se orgulhar. Sabemos e concordamos que nada substitui as polegadas cúbicas, contudo este 2.0 Ingenium a gasolina (herdado do Land Rover Evoque) se vale de uma imensa turbina twin scroll para entregar 300 cv (mesmíssima potência do Porsche 718 Boxster de entrada) nas rodas traseiras, o que é apenas 40 cv a menos que o V6 e seu ronco metálico oferecem. Os 40,8 mkgf também dão o ar da graça e fazem com que ele salte à frente a apenas 1.800 rpm, em cada troca das 8 marchas do câmbio ZF.

Jaguar F-Type 2.0

SORRISINHO

Mergulhado nessa dicotomia entre a decepção e a frieza dos bons números, decidi tomar a estrada nos fiordes noruegueses de Alesund, palco do teste-drive. A primeira impressão, de fora, é que pouco mudou. Estavam lá as belas rodas de 19” os imensos pneus 275/30 nas rodas traseiras e a maçaneta escamoteável, que se oferece para você assim que destrava o chaveiro. A diferença mais marcante está na ponteira do escapamento, central, com saída única retangular. Os kits aerodinâmicos de para-choques dianteiros e traseiros também foram amansados.

Lá dentro também é difícil crer que seja algo tão mal. O Ultra Blue da carroceria constrasta com bancos de couro cor de tijolo, quase laranjas, e são tão esportivos quanto todos os outros dos F-Type mais potentes que pude testar nessa vida sofrida. De perceptível, só muda o volante que não tem a base achatada da versão R, e os detalhes de acabamento, sem fibra de carbono nem costuras vermelhas. Até aqui tudo bem. Chegou a hora de apertar o botão de ignição.

Aquela bronca que o V8 dava ou o pigarro que o V6 tira da garganta ao serem despertados não estão mais ali. Isso muda o seu respeito com o carro. Me ajeito no banco e dou partida. Os primeiros 400 metros de aceleração plena arrancam um sorrisinho da minha boca, e isso é pouco perto dos palavrões que o V8 extrai do seu vocabulário. Afinal quem quer sorrir tem que fazer sorrir e aqui se gasta menos da metade do valor de um F-Type R.

Jaguar F-Type 2.0

PROCURANDO A DIANTEIRA

Sob o capô, esse 2.0 tem 52 kg a menos que o motor V6  e quase 100 kg a menos que o V8. Assim a Jaguar o equipou com molas e amortecedores mais macios, mas como não encontramos buracos na Noruega, não pude ter certeza de que o carro está mais agradável para os citadinos. Ficou clara a flutuação da direção em velocidades  acima dos 140 km/h (que a polícia norueguesa não nos leia) e está leve demais sem o peso extra lá na frente. Em alguns declives, você se pega “procurando” a dianteira para entrar em uma curva. Nada a ver com o que sempre foi.

Aqui também há uma função que faz com que o F-Type grite mais. Contudo é como mudar do volume 4 para o 9 do rádio. A Jaguar gastou um bom tempo tentando dar alma para o ronco deste novo F-Type, mas o que conseguiu foram uns estampidos extras nas reduções. Sem alucinações.

Disponível também na versão conversível, o FType 2.0, ou 300P como prefere a Jaguar, acelera de 0 a 100 km/h em 5,7 s na versão cupê, vai até os 250 km/h e promete beber apenas 7,2 km/l de gasolina na média combinada. Números bem bons perto da pontinha de decepção que ele me deu. Foi como conviver com a sua musa por um dia e, ao sentir um odor desgradável, perceber que ela havia tirado os sapatos...

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