Uma noite de crime: testamos o RS7 Performance de 605 cv

A Audi resolveu mexer no já insano RS7 e meter mais 45 cv sob o capô. Será que a fábrica acabou com o cupê-sedã? Será que um crime foi cometido?

Por Carlos Cereijo // Fotos: Bruno Guerreiro

Enquanto caminho em direção ao RS7 Performance, minha cabeça se move em negação. “A Audi não precisava mexer nesse carro. 605 cv? Pra quê?”, repetia a mim mesmo. O cupê-sedã já era o atual recordista de aceleração da C/D, com 0 a 100 km/h em 3,3 s. Eu mesmo havia feito a reportagem, em que o RS7 comum venceu o Mercedes-Benz CLS 63 AMG em 2015. Pedir mais seria como sugerir a Lionel Messi a melhorar a perna direita. Precisa? Será que o RS7 com o selo performance vale a pena? Saímos na noite e na pista de testes para descobrir.

NÁUSEAS E ADRENALINA 

Agora que estou dentro do RS7, já posso relembrar as náuseas que as acelerações dele me causavam. Como aquela mistura de adrenalina e mal-estar que só os bons parques de diversões conseguem proporcionar. Ninguém gosta do baque na primeira descida da montanha-russa, mas a maioria quer repetir a volta no fim do passeio. No interior não há muitas dicas de que o sedã ficou ainda mais animal, apenas sutilezas.

Uma delas é o botão Drive Select, que migrou do painel para o volante. Dessa maneira, alegam os engenheiros da Audi, não é mais preciso tirar os olhos da estrada para mudar entre os modos Comfort, Sport, Dynamic e Auto. Essa informação também aparece no cluster, para não haver desculpa de que não viu em que modo de direção você estava. Ali também você aproveita o sistema de visão noturna, que lê a temperatura para identificar pedestres e animais na penumbra. O carro também tem um controle automático de velocidade adaptativo. Nas rodovias, o sedã mantém a velocidade e a distância do carro a frente. Ele alerta o motorista e freia totalmente, se necessário.

A configuração performance traz de série os bancos RS – opcionais no restante do portfólio. Eles parecem que saíram direto de um catálogo de componentes para track-day. Fazem todo o sentido se o dono gosta de fazer curvas pendurado, mas... mas nada! Pois é isso que você vai fazer se comprou um esportivo com 605 cv e tração integral. De resto o RS7 presenteia seus ocupantes com luxo, lógica e sobriedade da cultura alemã. Se você já andou num A3, vai demorar 15 segundos para se acostumar com o grandão aqui. Nunca acelerou um Audi? Então vai demorar 18 segundos para se sentir em casa.


Do lado de fora, só os mais fanáticos e leitores da C/D vão sacar que este é um RS7 Performance. Os detalhes na dianteira, saias laterais e traseira não são em prata claro. Os acabamentos foram feitos em titânio fosco. A parte que denuncia o veneno extra são os retrovisores, também com este efeito. As entradas de ar na frente são um pouco mais pronunciadas, e o difusor traseiro é ainda mais chamativo. Se já é difícil perceber com o Audi parado, imagine a 250 km/h...

MESSI! VÁ TREINAR! 

Chega de falar de estética, para explicar como a Audi enfiou mais 45 cv dentro do motor V8 4.0 biturbo. O truque está basicamente na reprogramação eletrônica que aumentou a pressão nos turbos e os limites de rpm. Assim, esta se tornou a configuração de fábrica mais potente que já existiu para este V8. São 605 cv que vão até 6.800 rpm – 200 rotações a mais do que no RS7 normal. O torque de 71,4 mkgf começa lá embaixo, como dá para ver na ficha de testes. Mas agora há um overboost quando o pedal do acelerador está no fundo e a função esportiva Dynamic está selecionada. A pressão maior nos turbos eleva o torque para 76,5 mkgf entre 2.500 e 5.500 rpm.

Todo este trabalho da Audi apareceu na pista de testes. O RS7 Performance destronou seu colega como recordista da C/D em aceleração até 100 km/h. O esportivo cravou 3,2 s e ainda embolsou o irmão nas marcas de 400 m e 1000 m, sendo 0,2 s mais rápido em ambas as medições. Vale lembrar que as medições foram feitas com o controle de largada. O carro fica com as rotações em 2.800 rpm antes de ser catapultado a frente. Retomadas? Ficaram ainda mais insanas com 2,2 s de 80 a 120 km/h (a marca do anterior era de 2,4 s) e 1,1 s de 100 a 120 km/h, 0,1 s mais rápido.


Para aguentar toda essa força extra, o motor tem sistema mais parrudo de arrefecimento. O câmbio automático de oito marchas, também reforçado, se beneficia de um truque. Ele é aquecido pelo líquido que vem do motor assim que você liga o carro. Dessa maneira o conversor de torque chega logo à temperatura ideal de trabalho. Já tentou acelerar com um câmbio automático frio? É como empurrar uma geladeira na areia.

Quem não mostrou seu valor na pista de teste foi o sistema de freios, mas isso tem uma explicação. Os freios de carbono-cerâmica são perfeitos para a surra de uma volta rápida em Interlagos ou uma serra cheia de curvas. Eles aguentam os 2.005 kg do Audi frenagem após frenagem. Mas a temperatura ideal de trabalho deles é mais alta. Frios eles perdem rendimento e aumentam um pouco as distâncias de frenagem, mas não quer dizer que vão deixar você na mão. O bom é que o sistema poupa 10 kg se comparado a um sistema de freios convencional.

Saio do RS7 Performance convencido que a mudança valeu a pena. O Audi desfila quase sem levantar suspeita pela madrugada. Sinto-me o Uber mais rápido do mundo. Potência e desempenho das Ferrari dos anos 2000, com a praticidade de um Cobalt e o luxo de um Gulfstream. Pensando bem, se Messi tivesse a perna direita melhor os argentinos poderiam sair da fila de 24 anos sem ganhar nada. Vá treinar, Lionel!

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