Teste: Renault Captur 2.0

Com motores 1.6 e 2.0 e preço competitivo, novo SUV da Renault chega apostando todas as fichas no design e no tamanho. Isso basta?

Por João Anacleto // Fotos: Bruno Guerreiro

O que os olhos veem o coração sente. Em um universo a caminho da pasteurização, o apelo emocional decide a compra e, no caso dos automóveis, ele vem em formas concretas. O design é a principal razão de compra, antes mesmo de se pensar em confiabilidade, status, no motor, no câmbio ou qualquer outra informação que um entusiasta se preocuparia em saber. O grande público dos SUVs olha, se apaixona e leva para casa. Simples assim.

Talvez por já entender dessa história com o Duster, que não é lá o “Verão” dos SUVs, a Renault teve cuidado e  talento para desenhar o Captur nacional que é, sem dúvida, o utilitário compacto mais belo a ser visto este ano. Chegou no início do mês com preços partindo de R$ 78.900, na versão Zen com o 1.6 de 120 cv e câmbio manual de 5 marchas, e R$ 88.490 nesta opção Intense, com motor 2.0 16V e câmbio automático de quatro marchas. Haverá, ainda, um variação 1.6 com câmbio CVT deve ficar pronta na metade do ano, e virá com preço intermediário na faixa dos R$ 85 mil.

CROSS DE SI MESMO

Embora a versão brasileira tenha nascido da europeia, o resultado final tem pouco a ver com o Captur produzido na Espanha. Por lá ele usa a plataforma B da Renault, compartilhada entre o Clio europeu e o Nissan Juke – compactos mais refinados. O nacional se vale da base B0, criada para a linha Logan/Sandero/Duster. É difícil acreditar mas, sim, o carro das fotos divide genética e esqueleto com o Duster. Antes de destrinchar seu DNA, vamos ao que fará você querer um desses na sua garagem.

Desenhado em conjunto entre o Technocentre francês e o Renault Design Latin America, em São Paulo, o Captur brasileiro “é praticamente o facelift que representará a evolução do modelo europeu em alguns meses”, destaca Vincent Pedretti, designer chefe da Renault para a América Latina. A agressividade é parte do tema. A dianteira é bem marcada com dois grandes vincos no capô, há muitas partes de plástico preto no para-choques e na uma imensa grade frontal e LEDs em formato C nas extremidades da dianteira. A grade é ornamentada por um nada discreto logotipo da Renault, que deverá ser visto em outros modelos da marca daqui em diante.


Nas partes inferiores das laterais, mais uma peça plástica ganha destaque, contornada acima por um friso cromado. As folhas das portas são disformes, criando um efeito como se o Captur tivesse músculos humanos. Na traseira não foi gasto tanto tempo. Uma tampa simples com um cromado largo, herdada do modelo europeu, faz companhia ao para-choques alto e marcante. Isso lhe dá um ângulo de saída de 31 graus, típico de um carro disposto a encarar terra, facões e depressões, o que na prática não é a dele. Afinal não há tração nas quatro rodas disponível – como há no Duster. As lanternas também são iluminadas por LEDs.

O uso da plataforma B0 lhe rende as mesmas medidas do Duster. São 4,33 m de comprimento e 2,67 m de entre-eixos. Ele só perde em 2 cm na largura para o irmão mais pobre, em virtude do desenho esguio. O conjunto mostra uma silhueta um tanto elevada demais, como se o Captur fosse uma versão Cross de si mesmo. As rodas de 17” e os 21,2 cm  de altura com relação ao solo amplificam tal sensação. Um destaque positivo fica por conta da pintura em dois tons (R$ 1.400 extras), onde o teto pode vir na cor marfim,  combinando com um tom marrom ou preto da carroceria, ou na cor preta dividindo com outras sete opções de tons.

ESCONDIDOS

Por dentro, a intenção é a de misturar sensações, como em todo crossover. Mas o Captur não quer que você se sinta em um sedã ou em um cupê. “Como o carro tem um ponto H bem elevado, conseguimos uma posição de bancos e uma área envidraçada que deixa o motorista com a segurança e visibilidade de um SUV, aliado ao conforto de uma minivan”, conta Dominique Musset, diretor de produto da Renault.  O ponto H ao qual ele se refere é, basicamente, o ponto de apoio do seu quadril quando sentado no banco. 

Na prática é exatamente o que ocorre. Assim como tudo começou nos anos 2000, a posição dos bancos (R$ 1.500 com couro) é bem elevada, contrariando a tendência dos SUVs compactos parecerem mais com um carro do que com um jipe nos últimos lançamentos. A falta de um console central elevado e aquele apoio de braço grudado ao banco lembram o que se via nas já quase extintas minivans. Seu acabamento também tangencia por esse caminho, apesar dos bons bancos forrados de couro, os plásticos do painel não vêm com cobertura agradável e o painel de instrumentos, a exemplo da posição de guiar, também não parece uma novidade.


Já o volante melhorou sensivelmente, o cubo central diminuiu o que o faz parecer menor, mas Renault deveria lhe dar um tratamento mais preciso contra trepidações. O sistema eletro-hidráulico copia demais as imperfeições do solo e, comparado a outros SUVs contemporâneos, ele tem direção pesada. Mas não pesada como um esportivo. É pesada e imprecisa como um SUV pouco refinado, algo que o Captur não sugere ser. O espaço traseiro é decente, e o porta-malas de 431 litros é o mais real possível, com laterais retas, sem recortes.

Completando o interior, você pode ficar satisfeito com a central multimídia, fácil de mexer, intuitiva e de conexão rápida via Bluetooth, mas isso desde que você não precise usar o Android Auto ou o Apple CarPlay. Por aqui não é possível esse tipo de interação. Também desagrada a falta de iluminação na posição das marchas, no console, dos botões do volante e das chaves de seta, onde você aciona os faróis. De noite você tem que acreditar na intuição para saber as posições de que tudo está. Já os botões do controlador de velocidade e da função ECO ficam próximos da alavanca do freio de mão, um tanto escondidos. Não entendemos o motivo de não estarem mais à vista.

DESEMPENHO E CONSUMO

Depois de vasculhar o interior e perceber que ele muito mais das sensações do Duster do que gostaríamos, chegou a hora de guiá-lo. Sua chave é o manjado cartão de presença que acompanha os Renault desde a época do Mègane. “É a melhor escolha, os clientes adoram não ter de pegar a chave no bolso para abrir o carro”, exalta Bruno Hohmann, diretor de marketing da Renault, quando perguntado se o estilo dessa chave já não “cansou” o comprador. O carro traz outra solução interessante, mas que não funciona como nos acostumamos nos carros alemães: as luzes que acompanham a direção do carro em curvas. Apesar de existiram, na prática, os faróis de neblina acoplados ao farol iluminam bem pouco as laterais conforme você vira o volante. O ângulo do facho de luz deveria ser maior.


Equipado com motor 2.0 16V flex de 148 cv quando abastecido com etanol, o Captur se ressente de uma transmissão mais esperta e que converse com o motor harmoniosamente. Com relações muito longas ela faz o carro sofrer para ganhar velocidade, e isso aliado aos 1.352 kg de peso. Na pista de teste, ele levou 13 longos segundos para ir de 0 a 100 km/h, o que o trona o mais lento entre todos os SUVs compactos que já testamos. Outra má notícia está no consumo de combustível. Rodando em circuito urbano, ele não ultrapassou os 7,6 km/l, já na estrada os 9,4 km/l também não é algo que se possa aplaudir. 

Mas quem tem um SUV não busca apenas velocidade e consumo como meta, certo? Ainda bem, pois apesar do excelente trabalho feito na suspensão, exalando robustez e conforto, o Captur não é dado a manobras mais, digamos, radicais. Desvios rápidos e curvas fechadas parecem mais difíceis de fazer do que realmente são. A direção, como já citamos, também não ajuda muito para resolver essa ponta de insegurança. Entretanto, o nível de ruídos, tanto de vento como do trabalho do motor, fica bem isolado dentro fora da cabine e há pouca trepidação para os ocupantes. Mais uma prova do foco no conforto.

Além dos preços bem agressivos para um SUV desse tamanho, a Renault tem mais planos para convencer você a andar de Captur.  Um deles é garantir a aquisição de dois anos de garantia extras, totalizando cinco anos, no momento em que realiza o financiamento.  Para quem compra o carro zero quilômetro também haverá uma extensão de garantia, plano que ainda não foi divulgado. Uma clara intenção de bater de frente com o Hyundai Creta, que tem o período de proteção de fábrica como chamariz.

Em suma, se você não considerar o design, o Captur parece longe de incomodar os rivais mais tradicionais, como HR-V, Renegade, Creta e Compass (na versão de entrada Sport). Faltam argumentos técnicos que valorizem as suas belas formas. Só o design não bastou. Mas será que você será capaz de resistir aos encantos de tanta beleza externa? Achamos que não.

Compartilhe esse conteúdo



Comentários