O império contra-ataca: aceleramos o novo Cruze

Agora feito na Argentina, ele chega em junho por estimados R$ 75 mil para peitar o futuro Civic e o líder Corolla

Por Raphael Panaro e Carlos Cristófalo // Fotos: Divulgação

Manhã do dia 7 de dezembro de 1941. Soldados da Marinha executavam seu trabalho diário na Base Naval americana no Havaí. Os militares não sabiam que aquela aparente tranquilidade matinal se tornaria um dos episódios mais importantes da história mundial. Às 7h48, caças japoneses bombardearam o local e obrigaram os Estados Unidos a entrar na Segunda Guerra Mundial. O ataque ficou conhecido como a Batalha de Pearl Harbor.

Mais de sete décadas depois, japoneses e americanos travarão outra batalha, agora, no campo automotivo. De um lado, a segunda geração do Chevrolet Cruze, remodelada, mais refinada e tecnológica. Do outro, os líderes Toyota Corolla e Honda Civic – que logo estreia a nova geração no Brasil. Quem ganha desta vez? O novo Cruze chega às lojas entre junho e julho e custará na faixa estimada de R$ 75 mil a R$ 95 mil.

Para vencer a guerra no Brasil, os americanos pediram ajuda à Argentina: é no país vizinho, em Rosario, que o sedã médio será produzido a partir de junho. De lá, o carro seguirá para outros países da América Latina – principalmente para o Brasil. Para isso, os ianques tiveram de gastar muita plata: cerca de US$ 740 milhões foram investidos na fábrica de Rosário. O Cruze atual que está saindo de linha, vale lembrar, é feito em São Caetano do Sul.

O Chevrolet Cruze data de 2009, mas só em 2011 chegou ao Brasil. Foram cinco anos e apenas um discreto facelift em 2014. Na segunda geração, uma das armas é o design. A inspiração vem dos novos Malibu e Volt. Na frente, faróis afilados que invadem as laterais, para-choques vincados e uma generosa boca com filamentos cromados.

De perfil, o vinco de ponta a ponta é para dar a sensação do carro em movimento. A traseira tem lanternas inspiradas nos atuais Malibu e Corvette. A reforma geral ainda contribui para a aerodinâmica: o coeficiente de arrasto (Cx) melhorou de 0,30 para 0,29.

Mas talvez o melhor do Cruze é digno de um caça Stealth, aquele que  os radares não enxergam. O sedã se vale da nova plataforma D2XX, modular para carros de tração dianteira da General Motors, e que teve o desenvolvimento chefiado pelos alemães da Opel – marca da GM. A arquitetura permitiu que o Cruze crescesse, principalmente para abrir espaço ao pessoal que vai atrás, uma das falhas da primeira geração.

São 6,8 cm a mais no comprimento (4,67 m), dos quais 1,5 cm só no entre-eixos – total de 2,70 m – e 5,1 cm a mais na área dos joelhos de quem senta no banco traseiro, enquanto para as pernas foi adicionado 1,78 cm. Bem, no banco de trás, não há muita folga para a cabeça, outra queixa recorrente do Cruze atual. De qualquer modo, a nova estrutura abriu mais espaço, além de tornar o conjunto mais sólido.

Para quem dirige, a sensação de espaço é evidente. O para-brisa generosamente inclinado agora fica longe do motorista e termina em um longo painel, dando aos ocupantes uma atmosfera mais arejada.


TURBINADO

Para encarar a longa guerra, o soldado deve ter preparo físico e corpo atlético. Nesse quesito, o novo Cruze fez a dieta da sopa. Só a carroceria está 24 kg mais leve, enquanto 20 kg foram reduzidos no motor e outros 11 kg economizados na transmissão. No total, o novo sedã médio emagreceu 113 kg.

Menor massa igual a menos trabalho para o motor. Este, por sua vez, é outro artefato importante na nova geração do Cruze. Sai de cena o 1.8 de 140 cv e, pela primeira vez no Brasil, a Chevrolet terá um automóvel com motor turbo (sim, o Civic também o terá, como você verá no fim desta reportagem). Com injeção direta, o 1.4 Ecotec Turbo a gasolina produz 153 cv a 5.000 rpm e 25 mkgf de torque a 2.000 rotações (os números são do modelo argentino).

Por aqui, o motor será calibrado para beber etanol e a potência deve alcançar 160 cv. A Chevrolet deve manter a estratégia atual para a transmissão e oferecer apenas o câmbio automático de seis marchas (na Argentina, há a opção do manual, também de seis marchas).

Em nossos testes com a versão americana, que tem 155 cv entregues a 5.600 giros, o novo Cruze acelerou de 0 a 100 km/h em excelentes 7,6 s. Qualquer número já é melhor que o Cruze brasileiro 1.8 flex, que leva 11,3 s para atingir a mesma velocidade. Já as médias de consumo do Cruze americano ficaram em 12,7 km/l na cidade e 17,8 km/l, na estrada.

Apesar de toda a ligeireza, o motor trabalha no dia a dia de maneira relaxada para visar o máximo conforto. Resultado da combinação de marchas altas com giros baixos. A primeira marcha, no entanto, é tão curta que faz o carro arrancar nervosamente se você provocar o pedal da direita. O conta-giros sobe de forma exponencial até bater 6.500 rpm. A melhor faixa de torque é entre 2 mil e 4 mil giros. Daí o turbo sopra de forma incisiva e a transmissão automática de seis marchas responde prontamente.


MAIS E MENOS

Conforto também é a palavra para o rodar do novo Cruze. O carro surpreende pela suavidade da direção com assistência elétrica. É muito leve, o que é bom para executar manobras e estacionar o carro. Já em altas velocidades e curvas mais acentuadas, o peso aumenta de forma progressiva.

No quesito suspensão, nada muda: o conjunto  formado por McPherson na frente e eixo de torção na traseira é satisfatório. A refinada suspensão traseira Multilink, que equipa Civic e Focus, não foi consideradana novo projeto, mas a calibragem do conjunto convencional deu ao carro intrigante estabilidade e bom conforto.

Essa sensação pode ser comprovada pelo motorista. A posição de dirigir é correta e mais relaxada que esportiva. Os bancos dianteiros têm ajuste manual em quatro direções para o motorista e dois para o carona, e são revestidos de couro – na versão mais cara vendida na Argentina, a LTZ Plus, as regulagens são elétricas.

A Chevrolet diz ter apostado em plásticos mais robustos e suaves ao toque, mas manteve o estilo dual-cockpit, com formas bem definidas entre os segmentos do motorista e do passageiro. A qualidade do acabamento está melhor, mas esperávamos mais dos materiais usados. Há muito plástico rígido e pouca superfície macia – as dos painéis são bem ásperas.

O volante multifuncional tem ajuste de altura e profundidade, o aro não é muito grosso e a peça, não muito grande. Destaca-se pela ótima pegada.

Já o espaço traseiro é contraditório. Ao mesmo tempo em que o vão para as pernas aumentou, o acesso fica complicado por causa do caimento do teto. É preciso contorcer a cabeça para não batê-la na carroceria. Uma vez dentro, o espaço é suficiente para dois adultos e uma criança.

A capacidade do porta-malas regridiu. O volume cai de 450 litros para 440 l, assim como o tanque de combustível, que agora tem 50 litros, e não mais 60 l como na geração atual.


ARSENAL

O Cruze aposta em diferentes tecnologias. Na questão de segurança, o sedã oferece vasta lista de equipamentos que variam de acordo com a versão: air bags  laterais, controles eletrônicos de tração e estabilidade, cintos de segurança de três pontos e encostos de cabeças para todos os ocupantes, Isofix, câmera de ré e alerta de pressão de pneus são alguns dos itens.

A partir da versão LTZ, há seis air bags, sensores de estacionamento dianteiros e partida sem chave. Já a mais completa pode ter controle de cruzeiro adaptativo com alerta de colisão frontal, assistente de mudança de faixa e sistema de estacionamento automático.

Na Argentina, o Cruze tem a segunda geração da central multimídia My Link, com dois tamanhos da tela, ambas sensíveis ao toque: 7” para a versão LTZ e 8”, para a LTZ Plus. Além do GPS integrado, o sistema traz entradas USB e auxiliar e Bluetooth. O Mirror Screen, no qual é possível espelhar smartphones, é outro destaque. Compatibilidade com Apple Car Play e Android Auto é esperado no modelo brasileiro.

O atual Cruze foi responsável por estrear no Brasil o sistema de concierge OnStar. E a nova geração trará essa tecnologia de série. Por meio do retrovisor interno aciona-se a central de atendimento humano que funciona 24 horas por dia. Pode-se solicitar desde consultas rápidas (como informações sobre a previsão do tempo ou de vias alagadas ao longo do trajeto) até o envio de destinos ao GPS do veículo, bastando informar o endereço ou o nome do estabelecimento.

Com todo esse arsenal eletrônico, um item pode chamar a atenção dos brasileiros se a tecnologia aparecer por aqui: o Cruze argentino vem com função para carregar celulares por indução eletromagnética, sem fios. Basta repousar o aparelho sobre a superfície específica no console para carregar a bateria. Só alguns smartphones Android estão adaptados para tal tecnologia, enquanto os iPhone precisam de um adaptador.

PRONTO PARA A GUERRA

A segunda geração do Cruze evolui consideravelmente em relação à primeira. E terá alguns concorrentes de peso quando chegar ao Brasil dentro de mais algumas semanas. O Corolla, um dos concorrentes, terá reestilização (veja ao lado), mas só será páreo para o novo Cruze dentro de dois a três anos, quando terá nova geração. Resta o novo Civic com motor turbo. Apesar dos evidentes avanços do Cruze, o Civic tem chassi mais afiado e rodar mais refinado que o Chevrolet, como você viu no nosso teste com o carro na AF 38. A transmissão CVT suga um pouco a energia do motor 1.5 turbo da Honda, mas, ainda assim, o Civic é para quem gosta de assumir o volante. Já o Cruze é para quem prefere rodar com tranquilidade. Nesta briga, quem mandará é o preço.


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