Novo Sportage: teoria da evolução

Mais refinada, quarta geração do Kia entra na briga de gente grande. Mas ainda esbarra em heranças antigas

Por Marcelo Moura // Fotos: Bruno Guerreiro

Você é daqueles que compra carro por metro quadrado, como se estivesse escolhendo um apartamento? Então nós precisamos conversar sobre a quarta geração do Kia Sportage, lançada no último mês em duas versões: a básica LX, de R$ 109.990, e a topo de linha EX, que sai por R$ 134.990. Segundo a marca é a segunda delas, mais cara, que terá todos os holofotes – a estimativa é que a EX represente 70% das venda do SUV importado da Coreia do Sul.

Durante a apresentação oficial da nova geração, em Itu, no interior de São Paulo, os executivos da Kia elegeram seis rivais para a versão mais cara: Audi Q3 Attraction, Hyundai ix35, Mercedes GLA 200 Style, Honda CR-V EXL, Toyota RAV4 Top e BMW X1 sDrive 20i. Além do design ousado com “nariz de tigre” – que divide opiniões – assinado pelo renomado designer Peter Schreyer, a Kia aposta em lista de equipamentos recheada e dimensões generosas para convencer que merece o seu suado dinheirinho nessa briga de gente grande.

ESTIRÃO

 

Como um adolescente no auge da puberdade, o SUV cresceu 4 cm no comprimento (4,48 m no total), 3 cm na altura (1,66 m) e mais 3 cm no entre-eixos (2,67 m). A espichada dá uma boa vantagem em quase todos os quesitos frente aos rivais. O Sportage é, por exemplo, 7 cm maior que o Audi no entre-eixos, 5 cm mais comprido que o BMW e 8 cm mais largo que o Honda. Os números se refletem no ótimo espaço interno e não fazem com que os três passageiros do banco de trás se sintam como peças de lego. A Kia fala em 868 litros de capacidade do porta-malas, mas o número inflacionado é reflexo do cálculo feito da base do compartimento até o forro do teto – e não apenas até a altura dos vidros, como é mais comum. Independente disso, o espaço para a bagagem é bom, mas poderia ser melhor não fosse o estepe, com roda de 19’’.

Em suma a nova geração melhorou em tudo. Começando pela carroceria bem mais rígida, com aço de alta resistência em 51% em sua composição (contra 18% do antecessor), e passando pelo interior com materiais de acabamento mais sofisticados. O painel de plástico duro do antigo Sportage sai de cena, substituído por um de espuma injetada. Há mais maciez no toque. Some a isso os detalhes em black piano, sem brilho exagerado e aço escovado. Pronto! O acabamento do SUV não faz feio aos luxuosos rivais alemães.

A última aposta da Kia está na lista de equipamentos farta – mas só para a versão mais cara. A EX traz central multimídia com tela de 7” e GPS, teto solar panorâmico, ar digital de duas zonas, borboletas no volante, bancos de couro, controle de estabilidade, air bags laterais e de cortina, banco do passageiro com ajustes elétricos, faróis de neblina em led, assistente de tráfego e detector de ponto cego. Os últimos quatro, aliás, são exclusividade da Kia no segmento.


TIMING ERRADO

Se o quesito principal para você levar um carro para sua garagem é o desempenho, então pense bem na hora de optar pelo Sportage. O motor é o já conhecido 2.0 16V flex, com desempenho apenas razoável para empurrar o SUV de 1.630 kg. Em nossos testes de pista ele cumpriu o 0 a 100 km/h em 11s. O tempo é bem acima, por exemplo, dos 9,4s do Audi Q3 1.4 TFSI, o rival mais barato entre os elencados pelos executivos da marca.

Apesar da cavalaria superior (167 cv ante 150 cv do Audi), o calcanhar de Aquiles do Kia está no timing para despejar a força. Sem apelar para a onda do turbo, o Sportage sofre com os 20,2 mkgf de torque disponíveis a estratosféricos 4.700 rpm. O Q3, com seu motor menor e turbinado, tem torque maior (25,5 mkgf) já a 1.500 rpm. A solução seria apelar para o 1.6 turbo de 177 cv, com 27 mkgf de torque a 1.500 rpm, presente no Kia vendido na Europa. O problema é que isso demandaria custos demais para a adaptação à tecnologia flex, e o faria perder competitividade.


Apesar de não ser tão rápido, o câmbio automático de seis marchas é eficiente e suave nas trocas. Com esse bom trabalho, o Sportage precisou de 7,3s nas retomadas de 80 km/h a 120 km/h- enquanto um CR-V leva 10,9s. Já o consumo decepciona: segundo o Inmetro o SUV tem médias de 6,3 km/l na cidade e 7,7 km/l na estrada, quando abastecidos com etanol. A falta de dados sobre o consumo no computador de bordo surpreende.

Comparado com a geração anterior o SUV está bem mais silencioso, mas em algumas reduzidas o motor ainda berra e o motorista se sente como o jogador mais vaiado de um Maracanã lotado. A direção bem calibrada e a suspensão firme sem deixar de ser confortável, mesmo com rodas de 19”, são bons acertos da Kia. Há três modos de condução (Eco, Sport e Normal), mas se você não tiver a sensibilidade de um piloto de F1 vai notar pouca diferença entre eles.


SEM CULPA

Em sua quarta geração o Sportage mostra que tem bons argumentos para brigar de igual para igual com os rivais. A Kia, porém, prevê apenas cerca de 320 unidades vendidas por mês até o fim do ano. Falta de confiança em seu carro-chefe? Longe disso. A marca ainda sofre com a cota máxima de trazer 4.800 carros por ano da Coreia sem precisar pagar os 30 pontos percentuais extras de IPI, o que dificulta uma turbinada nas vendas.


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